A despedida do Xingu

texto: Luana Lila

fotos: Anderson Barbosa

HQ - Em torno disso

“Como posso fazer para entenderem que era minha vida que estavam destruindo?”

A segunda edição da Canoada Bye Bye Xingu percorreu paisagens e comunidades que serão impactadas pela hidrelétrica de Belo Monte

Foi balançando em canoas compridas, feitas de troncos de árvores, que um grupo de cerca de 80 pessoas navegou pelo rio Xingu observando a olhos nus os impactos causados pela construção da hidrelétrica de Belo Monte. Realizada entre os dias 7 e 10 de setembro de 2015, a Canoada Bye Bye Xingu, promovida pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Associação Yudjá Miratu Xingu (Aymïx), partiu de Altamira (PA) e passou pela região que está no olho do furacão da hidrelétrica.

Durante quatro dias e 110 quilômetros, os participantes acompanharam em câmera lenta, no tempo de cada remada, o correr do rio Xingu e, junto com ele, atravessaram momentos de contemplação, união, choque e finalmente, tristeza, ao ver a paisagem exuberante desse que é um dos mais belos rios da Amazônia ir, aos poucos, se acabando e sendo moldada pela destruição.

No primeiro dia, uma ondulação forte, conhecida como banzeiro, pegou a todos de surpresa. Logo ficou claro que a empreitada de remar por tanto tempo num rio selvagem como aquele não seria nada fácil. O esforço físico que cada um teve que fazer para passar esse trecho nervoso do rio foi gigante. Em questão de minutos os braços e ombros já começavam a doer, mas pela frente ainda tínhamos, naquele primeiro dia, no mínimo mais de seis horas de remada, afinal, eram ainda 7h30 da manhã e os quatro dias de canoada estavam apenas começando.

A ira do rio, que produzia todo aquele banzeiro, não era por caso. Justamente esse trecho difícil que enfrentamos é onde a Norte Energia, empresa responsável pela construção de Belo Monte, estava realizando o desmatamento das ilhas que serão inundadas pela formação da barragem. Chamado de “supressão vegetal”, em uma aparente tentativa de disfarçar o indisfarçável, o desmatamento de cerca de 43 mil hectares de floresta estava acontecendo logo ali, ao vivo e a cores, ao nosso redor. Para qualquer lado que olhássemos, víamos ilhas antes verdes e saudáveis sendo transformadas em terra inerte, galhos de árvores retorcidos e troncos empilhados.

Belo Monte já demonstrava a que veio. Os corações gelaram frente à derrubada da mata nativa antes tão imponente. Mas o horror de ver essa construção acontecendo no coração da Amazônia estava só começando. Os moradores locais – índios da etnia Juruna, ribeirinhos e extrativistas – nossos generosos guias que nos conduziram pelo rio, e nos receberam para contar suas histórias, explicavam que o banzeiro forte havia piorado depois que as ilhas começaram a ser desmatadas, indicando que a passagem do vento não encontrava mais a barreira das árvores e assim agitava mais o rio, dificultando a navegação. Fatos como esses não fazem parte das estatísticas, mas estão acontecendo, invisíveis para os de fora, mas bem presentes para os dali, mudando completamente a vida de quem depende do rio para sobreviver.

“Eu fui atrás dos meus direitos, mas não achei, não sei onde eles estão”

Apesar de todos os impactos socioambientais causados por Belo Monte até agora e de grande parte das condicionantes estipuladas no licenciamento não terem sido cumpridas, o Ibama concedeu, no dia 24 de novembro, a Licença de Operação permitindo que a Norte Energia, empresa responsável pela construção da hidrelétrica, inicie o enchimento do reservatório da usina. Para que isso aconteça, porém, a empresa precisa terminar o desmatamento de toda a área de floresta que está no caminho e remover as pessoas que costumavam viver nesses locais que serão inundados. Foi assim, às pressas, que o processo de reassentamento de populações urbanas e rurais foi intensificado – e o atropelo de direitos que marcou todas as etapas de construção de Belo Monte se tornou ainda mais brutal.

A pescadora Raimunda Gomes da Silva era moradora de uma dessas ilhas que seriam derrubadas e foi uma das pessoas que, com a Norte Energia, viveu um processo traumático de desrespeito e desengano.

Em uma cidade esmagada pela especulação imobiliária, causada pela chegada de trabalhadores de todas as regiões do país, a Norte Energia ofereceu a dona Raimunda uma indenização de 20 mil reais pelo seu terreno e sua casa na ilha. O valor, insuficiente para que ela e outras famílias consigam preservar seu modo de vida e sua fonte de renda, é calculado com base apenas nas casas feitas de madeira e palha onde essas pessoas moram, sem levar em conta o cultivo que elas têm ao redor e sem considerar que elas retiram seu sustento dali. Como bem define Raimunda, “eles olham, mas eles não enxergam, eles não sentem, para eles aquilo é nada. Eles não imaginam que estão acabando com o futuro de uma pessoa. Porque uma casa tapada de palha, coberta de chão batido, para eles não é casa, é uma palhoça, para mim era uma mansão. “Como posso fazer para entenderem que era minha vida que estavam destruindo?”, indaga Raimunda. “Para nós que vivemos da pesca, o rio é o banco. Ali você pega de R$1 a R$100. Mas agora ele faliu para mim” explica ela, que hoje vive distante do rio e, por isso, está enfrentando dificuldades para conseguir se sustentar.

Em junho de 2015, o Ministério Público Federal (MPF) realizou uma inspeção nas áreas atingidas por Belo Monte, avaliando o processo de remoção forçada dos moradores de Altamira e seus entornos. Na ocasião, o órgão publicou um documento com 55 constatações sobre o descumprimento das obrigações e com uma serie de violações de direitos, recomendando a paralisação urgente das demolições. Na ocasião, dona Raimunda, que foi visitada pela equipe do MPF, achou que poderia respirar aliviada e chegou a acreditar que sua casa seria poupada, mas, apesar de todas as recomendações, a Norte Energia prosseguiu com as remoções forçadas.

Segundo Raimunda, eles ligaram pedindo para que ela removesse suas coisas. Ela foi até lá no dia seguinte, mas, quando chegou, já estava tudo destruído. Sua casa estava queimada e seus pertences tinham sumido. “Eles queimaram a minha ilha no domingo e me ligaram na segunda perguntando se eu podia tirar as minhas coisas”, diz ela.

Inconformada, Raimunda continua lutando por seus direitos, mas não acredita mais na Justiça. Já percebeu os conflitos de interesses que marcam a construção de Belo Monte: “A Norte Energia se sente dona do pedaço porque ela acha que é governo e o governo tem o direito de fazer o que quer. Mas eu acho que não é assim, se a Constituição fosse válida, a gente não precisaria ir atrás dos nossos direitos porque eles estariam garantidos” diz ela. “Eu fui atrás dos meus direitos, mas não achei, não sei onde eles estão... Daqui para frente nada mais vai mais ser como era antes, nem o rio, nem a minha vida, nem a vida de muitas pessoas”.