As minas ficam para poucos, os danos são gerais

por Caetano Manenti, dos Jornalistas Livres, especial para o Greenpeace

O nível da água ficou marcado nas paredes da Igreja de Gesteira, em Barra Longa

Foto: Caio Santos

A relação da Samarco com os povoados do centro-leste mineiro é intensa desde a sua chegada na região, no fim da década de 70. Conhecemos um morador de Bento Rodrigues que suou na construção das barragens. José das Graças Caetano, hoje com 62 anos, pilotou tratores que colocaram abaixo uma floresta de eucaliptos para dar lugar à Barragem do Fundão. “E agora eu perdi na tragédia quase tudo de material que eu tinha: casa, documentos, roupas, fotos. Só restou a roupa do corpo e o meu Golzinho”. Foi o carro, em disparada morro acima, que salvou a vida da família Caetano.

Santarém, a barragem mais líquida, que servia de reservatório de água a ser lançada na pedra na rotina do trabalho de mineração, fica a menos de 2 quilômetros de Bento Rodrigues. A hipótese de um grave erro de localização da barragem ganhou força logo no dia seguinte à tragédia. Geólogos do Instituto de Geólogos do Brasil não aceitaram gravar entrevistas, mas confirmaram: três barragens não podem estar sobre as cabeças de quase 600 pessoas.

Havia interesse comercial da Samarco em Bento Rodrigues. Moradores do subdistrito dizem que a empresa tinha conhecimento do risco das barragens e que pretendia fazer uma quarta barragem ali — ou mesmo uma área de escape para caso de um acidente. O certo é que, mais de uma vez, a Samarco cadastrou as famílias em extensos relatórios. Em uma reunião com os moradores após a tragédia, um deles disparou: “a Samarco sabe mais da gente do que nós mesmos”.

Tatiana Gomes Ferreira defendeu sua dissertação de mestrado em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal de Ouro Preto em 2011. No resumo do estudo, a engenheira é enfática: “A mineração foi considerada (pela população de Santa Rita) como uma atividade negativa, devido ao desmatamento e à degradação de edificações, e os que apontaram como positiva levaram em consideração unicamente a geração de empregos. O principal impacto causado pela mineração (após o aumento da exploração na Mina Alegria, também na região) foi a intensificação da degradação das edificações, devido ao tráfego intenso de veículos pesados. As águas naturais e de algumas residências do distrito estão com sua qualidade alterada devido, principalmente, à contaminação bacteriológica e níveis de enxofre acima do permitido por lei”. O padre Geraldo Barbosa, da arquidiocese de Mariana, engrossa o coro contra as mineradoras da região. “As Minas estão concentradas na mãos de poucos. E os Gerais — o povo — ficam com a dor e a exclusão”.

Os caminhos que entrecortam o interior de Mariana e Ouro Preto têm um cheiro estranho, forte, de poeira no ar. O asfalto é avermelhado, do minério que despenca dos caminhões. Os morros têm aquele aspecto fatiado, próprio de uma região recheada de minérios. Só nos limites do município de Mariana, são 24 barragens registradas. Umas mais, outras menos, são motivos de temor para a população há muitas décadas —  e ainda mais agora.

A mineração é patrimônio histórico, cultural e econômico da região. Foi atrás de minas de ouro que os primeiros bandeirantes chegaram por lá na década de 1690. Muita riqueza já foi tirada daquela terra, especialmente no lombo dos escravos, que passaram a chegar aos milhares com o boom do ciclo do ouro. O protagonismo da mineração é tão grande nesta, que é a nossa, história que o próprio crescimento do Rio de Janeiro no século XVIII está relacionado com a demanda por escravos para extrair o minério.

“Colocar a mineração em xeque não, porque é uma indústria muito grande, que envolve muitos interesses econômicos, envolve muitas famílias, que dependem dela para sua subsistência. Além do mais, todo mundo quer uma geladeira, um celular, um carro…”, nos disse Ricardo André Peixoto, engenheiro civil, especialista em manejo de resíduos, membro do Núcleo de Estudos de Resíduos da Universidade Federal de Ouro Preto. Há dez anos, ele se dedica a transformar resíduos de minério como matéria-prima a ser utilizada na construção civil. “É uma pretensão dizer que vamos eliminar a barragem. Mas você pode ter barragens menores e com material menos contaminante. Com menos lama e mais água. É hora de rever como fazer a mineração. A gerência de riscos não dá para valorar. Eu consigo valorar uma barragem que rompe. Eu sei quanto custa refazer uma barragem. Mas quanto custa uma vida? É imensurável”.
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