De onde vem a carne que você come?

texto Rosana Villar

fotos Zé Gabriel/Greenpeace

 

Lançamento da campanha “Carne ao molho madeira”, que mostra como os supermercados estão ajudando a devastar a Amazônia, foi marcado por uma ação no Pão de Açúcar. Ativistas fantasiados de vacas instigaram os consumidores a refletir sobre o tema

O Greenpeace Brasil acaba de lançar a campanha “Carne ao Molho Madeira - Como os supermercados estão ajudando a devastar a Amazônia com a carne que está em suas prateleiras”. Esta nova frente de trabalho da campanha de agronegócio tem como objetivo mover as grandes redes varejistas do país, para que os supermercados passem a barrar carne de frigoríficos envolvidos com o desmatamento e violações dos direitos humanos. Atualmente, todos os brasileiros estão sujeitos a comprar carne contaminada com a destruição da floresta.

A pecuária ocupa aproximadamente 60% das áreas já desmatadas na Amazônia, segundo o projeto Terra Class, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o que coloca o setor como o maior vilão do desmatamento. Além disso, o gado é comumente utilizado como “ferramenta” para legitimar a grilagem de terra.

Mas este não é um problema novo. Há mais de dez anos o Greenpeace acompanha de perto os efeitos desastrosos da expansão da agropecuária sobre a Amazônia, e uma parte importante deste trabalho é o Monitoramento de Paisagem, realizado anualmente. No início, pouco se falava sobre o assunto, o que permitiu que atividades como a produção de soja e gado continuassem avançando silenciosamente sobre a floresta, esmagando o que estivesse pelo caminho. Em 2005, o índice anual de desmatamento, medido pelo PRODES, chegou a 27,7 mil quilômetros quadrados.

A pecuária ocupa aproximadamente 60% das áreas já desmatadas na Amazônia, o que coloca o setor como o maior vilão do desmatamento

Em 2006, o Greenpeace lançou o relatório “Comendo a Amazônia”, que expunha a contribuição da cultura de soja para o desmatamento do bioma, e, em 2009, veio o documento “A farra do boi na Amazônia”, que tratava sobre o avanço do gado. Ambos foram determinantes para que grandes empresas consumidoras de todo o mundo voltassem seus olhares para o problema e tomassem a decisão de não continuar compactuando com tanta destruição.

A partir de pactos ambientais (a Moratória da Soja e o Compromisso Público da Pecuária), as empresas consumidoras e negociadoras passaram a encarar a questão de maneira mais realista e produtores que insistiam em recorrer ao desmatamento e violações de direitos humanos começaram a encontrar as portas fechadas. De repente, desmatar deixou de ser um bom negócio.

Vamos colocar a Amazônia na frente dos bois: saiba como evitar que o desmatamento chegue ao seu prato

Isso provocou uma grande mudança de paradigma, e, em 2014 o índice de desmatamento na Amazônia foi para 5.012 quilômetros quadrados. Diversos estudos apontam que tais acordos de mercado contribuíram muito para essa queda. Mas ainda é muito desmatamento. É como se, todos os anos, perdêssemos o equivalente a quatro cidades do Rio de Janeiro de florestas.

No caso da pecuária, os três maiores produtores do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – participam do Compromisso Público da Pecuária. Essas empresas representam, juntas, cerca de 60% do que é abatido no bioma. Mas existem outros 40% que são produzidos sem qualquer controle social ou ambiental e que podem estar chegando a mesa de todos os brasileiros.

“Agora é a hora de os supermercados assumirem a sua parte da responsabilidade, já que têm o poder de boicotar a compra de produtos ligados ao desmatamento. Eles podem impedir que a carne contaminada com a destruição da floresta chegue ao nosso prato e fazer com que mais frigoríficos que atuam no bioma entrem para o acordo”, afirma Adriana Charoux, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Para elaborar o relatório “Carne ao Molho Madeira”, o Greenpeace passou sete meses avaliando a política de aquisição de carne bovina vinda da Amazônia de sete redes de supermercados – que juntas representam dois terços de todas as vendas de varejo em território nacional – para saber como as gigantes do setor vêm lidando com o problema. O resultado é assustador: nenhuma delas atingiu o “patamar verde”. Ou seja, nenhum supermercado consegue, hoje, garantir que 100% da carne que comercializa é livre de crimes socioambientais.

“Os brasileiros têm o direito de saber se sua refeição está contribuindo com a destruição da Amazônia ou com a violação de direitos humanos. Esta é a chance que os supermercados têm de fazer parte da solução, trazendo a proteção das florestas para o centro de suas políticas de compra de carne bovina”, desafia Adriana.