Um diário de viagem, mudanças climáticas e momentos especiais

Ou toda a emoção por trás das grandes mobilizações como a Ação Global pelo Clima em Paris

texto Heloísa Mota

fotos: divulgação


Era minha segunda vez em Paris, e eu caminhava até Praça da República, onde estava sendo realizado o Festival Alternatiba, uma das programações do Dia de Ação Global pelo Clima, em 26 de Setembro de 2015. De longe, avistei as tendas brancas, repletas de pessoas com roupas e fantasias coloridas, muitas plantas, banners, placas artesanais, gente se abraçando e grandes sorrisos de satisfação. Ali seriam realizadas exposições e atividades sobre alternativas para as mudanças climáticas: agricultura orgânica, justiça social, energia renovável, respeito à diversidade, mobilidade sustentável, proteção das florestas e da biodiversidade.

Havia o som dos parisienses e dos turistas nas brasseries e bistrots das redondezas, mas havia também um barulho único produzido pela mobilização do Dia de Ação Global pelo Clima. Era uma mistura de música ao vivo, gargalhadas, brindes em grandes copos de cerveja orgânica, lanches veganos sendo preparados, conversas sobre o clima entre dezenas de organizações e dos muitos voluntários que deram vida àquela deliciosa mistura de celebração, política e inspiração.

Os ativistas do Alternatiba dividiram uma bicicleta por cinco mil quilômetros para mobilizar a população

A primeira vez em que ouvi falar do Alternatiba foi durante a Conferência do Clima da ONU (COP 20) em Lima, no Peru, no fim do ano passado. Durante uma reunião da Cúpula dos Povos sobre as mobilizações de 2015 para a COP 21, em Paris, falou-se sobre um grupo de jovens planejando pedalar pela França. Eles queriam espalhar mensagens sobre a urgência em lidar com as mudanças climáticas por meio de experiências em que as pessoas poderiam provar um estilo de vida alternativo, com o uso de fontes de energia renovável e agricultura local e sustentável, por exemplo, lembrando que a sociedade é parte da solução.

Quase um ano depois dessa reunião, uma voluntária do Greenpeace França me recebia em sua tenda durante o Festival Alternatiba. Ela disse que todos estavam lá para comemorar a chegada, em algumas horas, dos jovens que fizeram o Tour Alternatiba 2015. Eles haviam saído de Bayonne, na França, no dia 05 de Junho deste ano (Dia do Meio Ambiente), e dividido uma bicicleta quadrupla por quatro meses, passando por 180 vilas e promovendo festivais. O movimento foi formado por uma coalizão de ativistas de várias organizações, que, até o fechamento da edição, pretendiam promover uma grande mobilização às vésperas da COP de Paris, nas duas primeiras semanas de Dezembro de 2015.

Mesmo sabendo de toda essa história, não poderia imaginar o que estava para acontecer naquela ensolarada tarde parisiense. Em frente a um grande palco ao lado da principal estátua da Praça da República, músicos com instrumentos de percussão e bateria iniciaram uma performance animada e muito familiar para uma brasileira. Acompanhados de uma grande boneca mulata de vestido florido, feita de papel machê, os músicos anunciavam que em breve presenciaríamos a chegada dos jovens que pedalaram pela França. A bateria embalava mais e mais pessoas que se juntavam à mobilização, ansiosas para entender melhor do que se tratava. Algumas imagens e registros jornalisticos do Tour Alternatiba 2015, que atingiu mais de 500 mil pessoas, passavam no telão ao lado do palco.

Eles chegaram pedalando, acompanhados de outros ciclistas apoiadores do movimento, que haviam se unido ao grupo poucas horas antes, realizando uma bicicletada pelas ruas de Paris. A música da bateria acelerou, a mulata de vestido florido apertou o passo na dança, e todas as cabecinhas na Praça da República permaneceram direcionadas para o palco, onde mais e mais pessoas vestidas com a camiseta verde do movimento Alternatiba dançavam e celebravam. Tive vontade de chorar. Gente muito diferente entre si havia se envolvido com um propósito comum, levar uma vida mais sustentável e contribuir com o sonho de um mundo mais saudável, limpo e justo.

Ativistas comemoram a chegada do Tour Alternatiba em Paris, cantando rap "On s’mobilise"
("a gente se mobiliza")

Os integrantes do movimento leram uma carta explicando os objetivos de suas atividades e mostrando sua luta contra as mudanças climáticas. Cantaram um rap do clima, choraram, gritaram e se abraçaram. Eles percorreram o país de bicicleta para fazer com que as pessoas tivessem experiências especiais como aquela. É muito além do que uma grande mobilização em massa. Eles atingiram o propósito de uma mobilização: emocionar e tocar as pessoas.

Aquilo me lembrou da primeira Bicicletada na Avenida Paulista, da primeira mobilização em espaço público no Dia Mundial Sem Carro, das reuniões na Matilha Cultural, do Existe Amor em SP, das Escolas Bike Anjo, das manifestações de junho, da marcha pelo clima em Lima, dos Dias Globais de Ação. Entendi profundamente que, para mudar o mundo, precisamos tocar as pessoas, e nos deixar tocar.

Após a comoção do Festival Alternatiba, que durou um fim de semana, o que eu mais queria era voltar para o Brasil e compartilhar tudo o que eu havia presenciado e sentido com as organizações integrantes da Mobilização Mundial pelo Clima no País. Queria que soubessem o quanto nossos planos – oficinas lúdicas, festa na avenida Paulista, desfile de carnaval e até show pelo clima no Parque Ibirapuera – seriam capazes de tocar muita gente. Estávamos no caminho certo. Estávamos construindo juntos um momento especial, que ficaria na memória de muitas pessoas, com muito carinho.

Por fazer parte da organização da Mobilização Mundial pelo Clima em São Paulo tomo a liberdade de dizer que, por trás da celebração e da emoção, existe um trabalho intenso de indivíduos determinados buscando as melhores formas de criar esses momentos, nos quais alguém que nunca imaginou fazer parte da mudança simplesmente se entrega e participa. O Festival Alternatiba recarregou as minhas energias e me trouxe de volta melhor mobilizadora do que antes. Fez com que acreditasse com mais força em todo nosso trabalho.

Encontro de organizadores da Mobilização Mundial pelo Clima no Brasil – saiba mais aqui

Aula pública nas margens da Represa Billings (São Paulo), com Ricardo Abramovay, população local, lideranças de movimentos sociais, artistas, agricultores orgânicos e comunidades indígenas de Parelheiros:

Desde setembro, a Mobilização Mundial pelo Clima em São Paulo se estendeu por mais cidades do Brasil, fruto do trabalho de voluntários das organizações envolvidas em outras cidades. Baterias universitárias compuseram um samba-enredo para acompanhar a marcha. A lista de e-mail, antes curta, já está lotada – todo dia, uma pessoa nova participa das discussões. As reuniões, que não chegavam a atrair 20 pessoas, precisam ser feitas em espaços maiores e, às vezes (que alegria!), não há cadeiras suficientes. As periferias e áreas distantes do centro estendido de São Paulo foram incluídas com sucesso nas rodas por meio de aulas públicas. Os temas escolhidos para representar as organizações na mobilização, Água, Energia, Cidade dos Sonhos e Florestas, ganham novas mensagens e subtemas a cada dia, e, mais pessoas tomam a liderança e executam com autonomia as atividades que ficavam restritas aos grupos de trabalho.

Hoje penso na sorte de ter participado do Festival Alternatiba e antecipado o grande momento que seria o dia 29 de Novembro de 2015 no Brasil, quando as pessoas iriam para as ruas mostrar que têm a solução para as mudanças climáticas, para um mundo melhor. Penso também tenho muita mais sorte de ter passado os últimos seis meses em companhia de grandes mobilizadores, que estão dando o melhor de si para inspirar pessoas na luta contra as mudanças climáticas.

É um processo de aprendizagem muitas vezes duro, cansativo e, felizmente, divertido e recompensador. Já sei que não vou me esquecer das reuniões presenciais e por hangout, das discussões, dos momentos mão na massa, dos receios, das expectativas e dos frios na barriga, dos e-mails carinhosos e propositivos que são trocados. Vou me lembrar de todos os sorrisos e sentimentos compartilhados nesses meses, tanto ou mais quanto vou me lembrar do evento em si. Ainda que não vejamos nas ruas tantas pessoas quanto imaginávamos, ainda que nem todo o planejado aconteça, cada evento é um momento especial, fruto de um processo árduo, no qual aproveitamos a oportunidade de trabalhar e construir algo juntos. Afinal, é por isso que continuamos indo para as ruas. Pela chance de construir um mundo melhor para todos, pela chance de viver e acumular cada vez mais momentos especiais e, quem sabe, pela sorte de emocionar alguém que estiver passando por perto.