Nos dias seguintes ao desastre da Samarco, nossa reportagem vai à Mariana e viaja ao longo do Rio Doce para ouvir a história dos atingidos e descobrir que a sede por dinheiro e a negligência da empresa e governo estão por trás do maior desastre ambiental da história do País

por Caetano Manenti, dos Jornalistas Livres, especial para o Greenpeace

fotos: ©Leonardo Sá

O prenúncio do horror foi sonoro.

A avalanche de lama, pedras, máquinas pesadas e todo o tipo de natureza retorcida chegou primeiro aos ouvidos dos moradores de Bento Rodrigues. “Pelo barulho que ouvi, achei que era o mundo acabando”, nos contou uma senhora que, um dia após a hecatombe, com os olhos secos de tanto chorar, tentava decifrar o que restou de seu lugar.

Eram quase três e meia da tarde de 5 de novembro, um dia quente, como de costume na vida do vale, e seco, como tem sido 2015 no centro-sul de Minas Gerais. Depois deste momento, nada mais foi como antes. A barragem de rejeitos de minério do Fundão, com cerca de 55 bilhões de litros de lama espessa, rompeu-se sobre os 7 bilhões de litros de rejeitos, esses mais líquidos, da barragem de Santarém. A combinação de lama e água virou uma bomba sobre a terra seca. O mundo não acabou como pensou a senhora. Mas uma parte dele sim.

“Pelo barulho que ouvi, achei que era o mundo acabando”
Foto: Bruno Bou

Como já ocorria com o ouro no tempo de um Brasil remoto, as riquezas de nossa terra pouco ficam por aqui. No caso da exploração nas Minas Gerais, o trem matou a floresta para cruzar o Estado e levar commodities para o exterior através dos portos do Espírito Santo

Foto: Gustavo Ferreira

Do Fundão ao Oceano Atlântico, são quase oitocentos quilômetros de morte e tragédia, que expõem, em cada local, um novo problema de uma interminável lista: a exploração minerária em si, a segurança do trabalho, a falta de planos de emergência, a dificuldade do acesso à água, a falta de respeito (e amor) pela natureza; o ancestral descaso com os direitos indígenas.

A equipe dos Jornalistas Livres e do Greenpeace percorreu o trajeto de destruição e agora conta por que o desastre mineiro/capixaba antecipa como poderá ser o fim da linha de um país que, há cinco séculos, suga suas riquezas mais profundas sem se preocupar com quase nada: nem bicho, nem planta, nem rio, nem mar, nem pobre, nem índio.

Estava avisado

O Ministério Público mineiro já havia registrado preocupação com a Barragem do Fundão

As primeiras pistas para entender o que ocorreu nas barragens da Samarco — empresa brasileira de propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton — surgem em 24 de outubro de 2013. Naquela quinta-feira a tragédia foi anunciada em documento oficial, de autoria do Ministério Público de Minas Gerais.

O promotor de justiça Carlos Eduardo Pinto encaminhou parecer para o Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM-MG), órgão do Governo do Estado, sobre os riscos de revalidar a Licença de Operação da Barragem no Fundão, expirada em setembro de 2013. Usando-se de um laudo do Instituto Prístino, o promotor fazia alertas claros, ao apontar o perigo do contato da Barragem do Fundão com pilhas de estéril de uma outra imensa mina em Mariana, essa de exploração exclusiva da Vale, chamada Fábrica Nova.

É preciso explicar:

“Rejeito” é tudo aquilo que não é usado após o beneficiamento do minério, e é armazenado em barragens. Já o “estéril” é o material que envolve o minério, e é desprezado ou removido no processo de lavra, ainda na mina. Esse material também pode ser alocado na própria mina, disposto em pilhas ou usado para terraplenagem.

O estudo diz: “Esta situação [do contato da barragem com as pilhas de estéril] é inadequada para o contexto de ambas estruturas, devido à possibilidade de desestabilização do maciço da pilha e da potencialização de processos erosivos. (…) O contato entre elas não é recomendado pela sua própria natureza física. A pilha de estéril requer baixa umidade e boa drenagem; a barragem de rejeitos tem alta umidade, pois é reservatório de água”. O contato entre os dois materiais (que pode ser visto nos pontos tracejados da figura), segundo a Prístino, dificultaria a drenagem da barragem.

Em outros dois trechos assustadores — e agora sabe-se, proféticos — o parecer do Ministério Público mineiro foi além. Pedia que três pontos fossem condicionantes para a revalidação da licença.

  • a) Realizar monitoramento geotécnico e estrutural periódico dos diques e da barragem, com intervalo máximo de um ano entre as amostragens.
  • b) Apresentar plano de contingência em caso de riscos ou acidentes, especialmente em relação à comunidade de Bento Rodrigues, distrito do município de Mariana-MG.
  • c) Realizar análise de ruptura (DAM — BREAK) da barragem, prevista para ser entregue à SUPRAM (Superintendência Regionais de Regularização Ambiental).

Três parágrafos que mudariam a história desta tragédia.
Foto: Gustavo Ferreira

Após o rompimento, soube-se que o Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais nunca respondeu ao parecer. Afinal, a Secretaria de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas justificou que as operações na barragem do Fundão estavam legalizadas, uma vez que, conforme norma do próprio COPAM, está garantido que: “Nos processos em que se constatar a apresentação de requerimento de revalidação dentro do prazo de validade da licença, este prazo ficará automaticamente prorrogado até decisão da Unidade Regional Colegiada do COPAM”.

Fundão funcionava, assim, com uma licença prorrogada automaticamente, apesar de haver um laudo objetivo a respeito dos perigos para a segurança da barragem em si e, mais especificamente, para o povo de Bento Rodrigues. A possibilidade do rompimento das barragens era conversa frequente nos bairros do noroeste do distrito, segundo muitos moradores conhecidos durante nossos dias em Mariana e região.

Longe de Bento Rodrigues, entretanto, a Samarco era uma empresa premiada por sua eficiência face à crise econômica mundial. Apenas quatro meses antes do acidente, em julho, a empresa recebeu, pela terceira vez consecutiva, o prêmio de “Melhor Empresa do Ano” na área de mineração, conferido pelo anuário “Melhores e Maiores”, da revista “Exame”, publicada pela Editora Abril.

A premiação é resultado da análise e tabulação de dados elaboradas por uma equipe da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), da Universidade de São Paulo, que assim justificou o prêmio da Samarco: “Conseguiu crescer mesmo em meio à desaceleração econômica e queda no preço do minério de ferro. Ela obteve a melhor rentabilidade do setor e é destaque pela terceira vez, com um faturamento de US$ 2,6 bilhões e lucro de US$ 1 bilhão. O segredo, segundo a empresa, é planejamento, controle de custos e fidelização de clientes.”

Foi uma performance invejável em condições tão adversas. Segundo a publicação “The Steel Index”, o mercado de minério de ferro vive um momento crítico. A commodity com entrega imediata no porto chinês de Tianjin fechou cotada a US$ 44,20 em 24 de novembro. Foi a cotação mais baixa desde o início de julho, quando a matéria-prima do aço tocou a marca dos US$ 44,10, menor nível já registrado pela série histórica iniciada em 2008. Para se ter uma ideia, em fevereiro de 2011, a tonelada chegava a ser comercializada a US$ 187,10. Em 4 anos, verificou-se uma queda de 76% no preço da matéria-prima. Especialistas do setor que não quiseram gravar entrevistas disseram que é perfeitamente correto imaginar que as minas da Samarco estivessem trabalhando perto de ou em sua capacidade máxima para cobrir os prejuízos com a brutal queda de valor do minério.

“Em 2014, o preço de venda do minério de ferro bruto recuou 47% em relação ao que era praticado no ano anterior, e o aumento da oferta global, combinado à desaceleração de mercados consumidores estratégicos, indica um cenário que não é passageiro; pelo contrário, impõe à indústria mineral um ambiente de negócios diferente, que consideramos um novo capítulo da história da mineração.”

O texto consta do “Relatório Anual de Sustentabilidade 2014”, editado pela Samarco. A saída? Altíssima produtividade e controle de custos. Sobre o controle de custos, é fácil dar um exemplo. Embora diga seguir à risca um Plano de Ações Emergenciais (PAE) das barragens, que teria fundamentado em 2014 um total de 1.356 horas de treinamentos com os empregados envolvidos direta ou indiretamente nas atividades, na prática a empresa não dispunha nem mesmo de alarmes sonoros para emergências, como, obviamente, é o caso da ruptura de uma barragem. As sirenes só foram instaladas dois dias depois da tragédia, “para o caso de novo rompimento de barragem”, informou com candura o engenheiro e gerente de Projetos da empresa, Germano Silva Lopes. O lema da Samarco é “desenvolvimento com envolvimento”.

Quanto à produtividade, basta ver os demonstrativos da empresa. Se, em 2009, a Samarco produziu 16 milhões de toneladas de pelotas de ferro, em 2014 comemorou a produção de 25 milhões de toneladas. Trata-se de um crescimento de 56% em apenas cinco anos, dos quais 19% apenas entre 2013 e 2014. O aumento de produção, é certo, gerou uma montanha a mais de rejeitos.

Esferas utilizadas no processo de pelotização do minério também foram carregadas até Bento.
Foto Rafael Lage

Em 2009, a produção de rejeitos batia na marca de 13.7 milhões de toneladas. Em 2014, a geração de rejeitos atingiu o recorde de 21.9 milhões de toneladas (crescimento de 60%, dos quais 33% apenas entre 2013 e 2014). Onde era armazenado o excesso de rejeitos? É a própria Samarco quem responde, em seu “Relatório Anual de Sustentabilidade 2014”:

“Na Samarco, todo o rejeito (materiais arenosos e lamas) gerado na etapa de beneficiamento do minério de ferro é armazenado em um sistema, composto das barragens de Germano e de Fundão e do empilhamento na Cava do Germano, na unidade de Germano (MG).”

Se em 2013, o Ministério Público mineiro apontava para o risco de “desestabilização” da barragem, esse risco aumentou com o acréscimo de mais dezenas de milhões de toneladas de rejeitos na barragem ameaçada.

Operários que trabalhavam na barragem confirmaram para nossa equipe que a empresa realizava obras visando o aumento da capacidade das barragens de Germano e do Fundão. A previsão era que houvesse alteamento da barragem do Fundão para a cota 940 metros (sobre o nível do mar) até 2022. Em 2013, quando foi elaborado o parecer técnico encomendado pelo Ministério Público, a mesma barragem alcançava a altura de 920 metros. E já havia a previsão de elevá-la à cota 930 metros, proposta que o parecer condenava, afirmando que poderiam ocorrer “vários colapsos”.

Barragens: São mais de 700 em Minas Gerais. 24 só em Mariana, todas ligadas à mineração

Foto: Bruno Bou




Após os incidentes em outras duas barragens, autoridades públicas e a própria Samarco admitiram a possibilidade de rompimento da barragem de Germano

Foto: Gustavo Ferreira

O FUTURO SOTERRADO


Imagens aéreas do distrito de Bento Rodrigues revelaram para o mundo o que pode ser o maior desastre ambiental da história brasileira. Uma cena de pesadelo, algo como o fim dos tempos. Em vez de meteoro ou tempestade, veio como lama, com nome oficial de rejeito de minério. “A barragem é a única parte do negócio da mineração que não dá lucro”, nos contou um engenheiro do setor, em entrevista num laboratório da Universidade Federal de Ouro Preto, uma semana após o desastre.

Ao contrário do que recomendava o Ministério Público, a Samarco não tinha um plano de contingência para a comunidade de Bento Rodrigues. O máximo que se soube foi de algumas ligações telefônicas para os moradores. Ouvindo o barulho destruidor se aproximar, um corre-corre desesperado começou. Os mais velhos foram recolhidos de carro. Os mais jovens subiram correndo para as partes mais altas da localidade.

Moradores do vilarejo diziam-se aliviados de que o rompimento não tivesse ocorrido durante a madrugada, o que certamente teria matado muito mais gente. O número de vítimas fatais humanas da tragédia é de 19 pessoas, seis delas ainda desaparecidas. Sabe-se que cinco pessoas não conseguiram sair do vilarejo a tempo. Três idosos e duas crianças. Uma delas é Emanuelly Vitória, de apenas 5 anos, que, na hora do desespero, se perdeu de seu pai, Wesley Isabel, e foi levada pela enxurrada. Thiago Damasceno, de 7 anos, foi atingido dentro do quarto da avó. Maria Elisa Lucas, de 60 anos, estaria visitando o distrito para pescar na hora do incidente. Maria das Graças Celestino, de 65, tentou buscar pertences em casa e não foi mais vista. Antônio Prisco de Souza, o Totó, de 65 anos, também não conseguiu fugir, assim como tantos animais, de cachorros a gatos, bois e cavalos, passarinhos em gaiolas, que ou morreram na hora, ou agonizaram na lama nos dias seguintes.

Daqueles que conseguiram escapar para as partes altas do lugarejo, muitos não conseguiram deixar o lugar imediatamente após a tragédia. As equipes de resgate não chegaram antes do cair da noite e muitos foram os que sofreram madrugada adentro no cenário do caos. Menos mal que os heróis existem, como Danilo Caetano. No dia seguinte à tragédia, seu nome era o mais falado. O homem de 39 anos, hoje morador da vizinha Santa Rita Durão, usou o conhecimento adquirido nos anos vividos na comunidade e criou caminhos alternativos para dezenas de pessoas deixarem o pesadelo. Uma servidora da Secretaria Municipal de Saúde — que não quis dizer seu nome, mas que também passou a noite salvando gente da barragem rompida — contou que Danilo escalou até as copas das mangueiras para salvar cinco jovens. “Ele subia e descia esse morro com água e comida para alcançar as pessoas que não podia resgatar.” Quando o dia amanheceu, exausto, Danilo deixou para trás a cidade. Em vez do agradável bar sob as mangueiras, lama. Em vez do campo de futebol, da igreja ou de sua escola, lama.

O rejeito de minério “acabou com Bento”, nas palavras repetidas de muitos moradores que, ainda incrédulos, subiam até o morro vizinho, que servia de plateia, para observar a cena. Bento Rodrigues era um subdistrito do distrito de Santa Rita Durão — ambos com origem no século XVIII e ambos berços do desenvolvimento da mineração em Minas Gerais — no extremo noroeste do município de Mariana, próximos aos limites com as cidades de Catas Altas e Ouro Preto, aos pés da Serra do Caraça. Só não podia ser chamado de lugar pacato porque as explosões das minas ao redor chacoalhavam o povoado repetidas vezes — em especial, na hora do almoço.

Os líderes do Movimento dos Atingidos por Barragens e do Movimento dos Atingidos pela Mineração criticam o atendimento às vítimas levado à cabo pela Samarco, sobretudo em Bento Rodrigues. Segundo Pablo Dias, da coordenação estadual do MAB, “a Samarco fez ações para dividir as famílias. Tentou forçar negociações individuais, sem deixar o processo de comoção passar. Temos pressionado as autoridades públicas e a Samarco para deixarem as pessoas com as cabeças tranquilas, para saber o que elas querem para suas vidas. Os moradores já na primeira semana tiveram que responder a um questionário, que perguntava o que tinha no local. Chegaram a perguntar também qual o interesse das pessoas: reassentamento ou indenização?, o que dá a entender que não seria possível as duas coisas.”

SUJANDO DE SANGUE AS MINAS GERAIS


Depois de arrastar Bento Rodrigues, a lama seguiu em direção sudeste, atravessando os limites do município de Mariana, desgraçando o rio Gualaxo do Norte, até chegar às pequenas Paracatu de Baixo e Barra Longa, na madrugada do dia 6. O prenúncio da lama corria a cidade desde o fim da tarde, o que salvou vidas humanas, mas não evitou o pânico e a destruição no comércio e nas residências das partes baixas.

Piores foram as perdas nos interiores dos municípios, como no distrito de Gesteira. A parte nova da comunidade, localizada morro acima, ficou ilhada. Já Gesteira Velha, que ficava ao nível da margem do rio Gualaxo do Norte, foi coberta pela lama. Suas quinze famílias perderam as casas, o pequeno grupo escolar de oito alunos e a quadra de futebol. De pé, como prova de alguma resistência, sobrou apenas a antiga igreja, suja até o quinto metro de altura.

“Graças a Deus vocês trouxeram água”, agradeceu dona Ni Pinto Bento, de 73 anos, à Cruz Vermelha. Ela explicou que a sede estava aumentando. Afinal, a severa estiagem persiste, e do poço de onde ainda se buscava alguma água, agora só sai lama.

— Parecia que tava acabando...
— Acabando o quê, Dona Ni?
— O mundo, uai! 

O Gualaxo do Norte levou a lama até o Rio do Carmo em direção à cidade de Santa Cruz do Escalvado, cenário de algumas das mais chocantes cenas que vimos em nossa viagem. É dentro dos limites deste município que o Rio do Carmo encontra o Rio Piranga, e é desse encontro que surge o Rio Doce. É nessa primeira porção do Rio Doce que está localizada a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, de propriedade da Vale. Em 2004, a localidade de São Sebastião do Soberbo foi inundada para a construção da represa da usina, o Lago do Candonga. A lama, que chegou no começo da manhã de sexta-feira, arregaçou o Candonga, que virou um imenso cemitério da natureza, de árvores retorcidas, de seres humanos, peixes e outros animais. O cheiro de morte era quase insuportável. As cenas, inacreditáveis.

Do alto das pontes e de cima dos barrancos era possível avistar alguns poucos bombeiros  e funcionários da Samarco trabalhando numa espécie de rescaldo do resgate. Em um dos poucos restaurantes da localidade, encontramos uma equipe completa da Defesa Civil. O líder da operação não aceitou gravar entrevista, mas um outro agente, com olhar muito mais deprimido, admitiu: “Ontem, eu mesmo encontrei um cadáver. Depois um outro braço”.


A lama chegou com força nas pequenas cidades de Paracatu de Baixo e Barra Longa, encobrindo ruas, invadindo casas e estabelecimentos comerciais

Foto: Bruno Bou

ERA DOCE E SE ACABOU

Ao encontrar o Rio Doce, a lama iniciou uma torturante viagem a nordeste em direção a Ipatinga e Governador Valadares.


Há intensa atividade siderúrgica às margens do Rio Doce, como no caso da ArcelorMittal Inox Brasil, no município de Timóteo, ou da própria Usiminas, em Ipatinga, cidade de 255 mil habitantes. A pouco menos de um quilômetro de distância do robusto leito do Rio Doce, a Usiminas despeja fumaça preta no ar. A poluição mata o rio há tempos. Desde a década de 80, o Rio Doce não é usado para banho em Governador Valadares, próxima parada de nossa jornada.

Centro urbano com 275 mil habitantes, Governador Valadares é a mais populosa entre todas as cidades no caminho da lama. Moradores dos bairros que margeiam o Rio Doce se surpreenderam quando viram grandes peixes mortos começando a boiar - pensavam que não havia mais nenhum deles por ali, por conta da poluição.

Mas a população de Valadares está preocupada mesmo é com o abastecimento de água. Foi tanta sujeira no rio que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto da Prefeitura interrompeu a captação de água na única fonte da cidade, logo que a lama chegou ao local, cinco dias após o desastre.

Na casa de uma numerosa família baiana, conhecemos o casal Maria Eunice, de 52 anos, e Enildo de Jesus Santos, de 55. Para tomar banho e lavar a roupa de toda a semana, que ainda seria batida no leito de um outro rio, eles estocavam água em baldes de tintas. O maior problema, no entanto, era para o serviço profissional de Maria, a faxina. Naquela semana que passara, quatro das cinco patroas que a contratavam para uma limpeza diária, cancelaram a limpeza. Assim, a diarista ganhou apenas 1/5 do que calculava em sua semana.

“Na hora de dar água, a prefeita [Elisa Costa, do PT] só dá água para alguns. Só para os hospitais. E a população fica como? Meu trabalho é à moda água! Nós é faxineira! Vive do suor, tem que ter água para trabalhar”, disse Eunice, aflita.

Enchendo a caixa d’água a partir da doação de um vizinho que possuía um poço artesiano, o piscicultor Esdras Rulon, de 32 anos, engoliu o choro: “Irresponsabilidade muito grande da Samarco. Pessoal tá visando só lucro, lucro, lucro. Esquece de todo o resto. Irreparável! Não vai ter como! O transtorno é muito grande. Eu tenho uma fazenda de criatório de peixes, quase 400 mil peixes. Eu quase não tô dormindo de medo que a lama invada minha fazenda ali. Hoje é sábado, eu queria estar na cama descansando, tô aqui procurando água. Pelo amor de Deus, me ajuda, ô”.

A batalha pela água para quem tem dinheiro é mais fácil. Em nossa passagem pela cidade não era raro ver camionetes carregando caixas d’água inteiras em suas caçambas. Caminhões-pipa abasteciam hotéis e prédios confortáveis. Por R$ 50, era possível encher uma caixa d’água de 800 litros.

A fila que se formou na distribuição de garrafas de água mineral, oferecidas pela própria Samarco, e distribuídas pela Tiro de Guerra, instituição ligada ao Exército, mostrou que a maioria não tem dinheiro para tanto. Na manhã de domingo, quinto dia sem água em Valadares, três mil pessoas amanheceram na maior das dez filas dispostas pela cidade. Cada pessoa poderia pegar apenas seis garrafas de um litro e meio. Algumas senhoras choravam por não conseguir carregar a sede em seus braços.

Watu morreu

Em Resplendor, povo Krenak perde aquilo que as palavras ainda não dão conta de contar

Nenhuma experiência de nossa viagem foi tão impactante quanto visitar a aldeia dos índios Krenak, no município de Resplendor, já bem próximo da divisa entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O caminho impõe a travessia de pontes que davam a dimensão da imensa largura do rio — mais de 500 metros em alguns trechos. A trilha de chão batido ladeava a Estrada de Ferro Vitória-Minas, mais uma personagem desta triste história, passagem para o minério extraído em Minas rumo aos portos do Espírito Santo. Chegamos à aldeia apenas dois dias depois de a lama ter destruído o “Watu”, nome dado pelos índios ao rio. Chegamos em pleno velório e fomos recebidos por Batik Krenak, pintado de preto desde a barriga até os lábios inferiores.

“O Watu é fonte para tudo na vida dos Krenak. Desde o banho, a caça, a pesca, principalmente a questão religiosa. A gente tem uma relação forte com o rio, a gente tem a consideração de que o rio é uma mãe nossa. Com tudo isso que aconteceu, a comunidade Krenak decidiu tomar uma decisão [de sentar sobre os trilhos do trem da Vale]. A gente não pode ficar nesta situação. Os responsáveis têm que vir aqui e têm que conversar, para saber como nós vamos viver daqui para frente. Nós estamos aqui velando o rio, já que ele está morto. Eles acharam que mataram só o rio, mas nos mataram também.”

Djanira Krenak, a matriarca da tribo, nos recebeu com um ramo de erva nas mãos e o olhar perdido. Liderança moral e religiosa na comunidade, é ela, por exemplo, quem batiza todas as crianças nascidas na aldeia.

“É como quem mata gente. É a mesma coisa. Matou o rio, matou o peixe, matou a cobra da água, que é a sucuri. O rio é tudo para nós. Ele é sagrado, faz parte do tudo, da nossa religião, onde a gente ensinava a criança nadar de um lado a outro. Os parentes que já morreram também fazem parte do rio. Acabaram com o nosso povo”.

Na divisa com o Espírito Santo, no município de Aimorés, acompanhamos a chegada da lama à cidade. Depois de executar tantas formas de morte, agora a lama se preparava para matar o gado de sede e as sucuris de desespero. A vegetação seca, o rio morto e as tantas lamúrias ao longo da jornada não tinham fim. Ainda tivemos tempo de ouvir uma nova história, digna de tempos apocalípticos. Fomos alertados para termos cuidados com ataques de sucuri, as cobras gigantes. A lama havia provocado a falta de oxigenação adequada na represa e, assim, as sucuris estavam fugindo da água, lutando pela vida, subindo os morros em fuga.


Arca de noé

Nossa viagem segue a lama ao longo do Rio Doce no Espírito Santo e testemunha uma operação de resgate de espécies endêmicas

Texto Egle Bartoli, dos Jornalistas Livres, para o Greenpeace

Foto Bruno Bou

O menino com seu olhar doce se despedia do rio que também Doce aguardava a lama que escureceu suas águas e decretou sua morte. Assim como Lucas, que tocou a água com suas mãos e pés, talvez pela última vez, a população de Linhares, no Espírito Santo, velou e se despediu do Rio Doce no dia 18 de novembro, um dia antes de a lama tóxica da mineradora Samarco invadir as águas da região.

Neste mesmo dia, no cais de Linhares, uma antiga placa já parecia antecipar a tragédia: “Sou vida, gero vida. Deixe-me viver.” Assina: Rio Doce. Em torno da placa, curiosos, pescadores, jornalistas, biólogos, mulheres, crianças, todos observavam os pequenos barcos de pescadores que chegavam com caixas de isopor repletas de exemplares de peixes típicos da região, como o charuto, a moreia preta e o pitu.

Chamada de operação “Arca de Noé”, a iniciativa do Ministério Público Federal do Espírito Santo e do Ministério Público Estadual, em parceria com associações de pescadores e com entidades ambientais, demonstrava o carinho pelo rio que atravessa e faz parte da história da cidade. Como no antecedente bíblico, tratava-se de salvar animais nativos de um dilúvio (agora, um dilúvio de lama), a fim de que elas repovoem o mundo quando a bonança voltar. O que se quer é evitar a possível extinção de tantas espécies endêmicas no rio.

Depois de serem pescadas no rio Doce, as amostras foram recolhidas pelos representantes do IFES (Instituto Federal do Espírito Santo), que trouxeram em seu carro os equipamentos necessários e um tanque com água preparada para receber os peixes. Os bichos foram então despejados sob os olhares atentos das pessoas que cercavam o carro oficial.

Em seguida, as amostras dos animais foram encaminhadas à sede do órgão que as classificou e separou, na esperança de que um dia o Rio Doce renasça e estes peixes possam voltar a viver em suas águas. Esta mesma medida foi realizada em toda a região.

É incrível o silêncio que se alastra pelas cidades, agora que o rio está prestes a atingir o mar. Se a tragédia do rio Doce começou com um imenso estrondo, o estrondo da ruptura da barragem, agora o que incomoda é o silêncio opressivo. Em silêncio, como em um velório, a vila de Regência, no município de Linhares, onde as águas do rio Doce se encontram com o mar, é só tristeza. Todos os cantos deste pedaço idílico da terra lamentam a perda do rio.

O local, que vive da pesca e do turismo, esperava a lama como quem espera pelo desenlace final. Como nos relatou Wesley do Nascimento, pescador local: “É como se estivéssemos na UTI, só esperando a morte chegar”.

Os pescadores da vila estavam desolados e desesperados diante da situação, sem apoio de nenhuma autoridade para criar um plano que pudesse garantir sua sobrevivência, já que desde o dia 9 de novembro foram proibidos de pescar, tanto no rio como no mar, sob a ameaça de serem presos caso descumprissem a medida. “Não sei se vou estar vivo para voltar a pescar neste lugar um dia”, disse Wesley. Diante da situação, muitos pescadores se viram obrigados a trabalhar temporariamente para seus algozes, contratados que foram pela própria Samarco para colocar boias de contenção na água. Segundo a mineradora, a providência impediria o avanço da lama.

Ainda que descrentes, por uma questão de sobrevivência os pescadores aceitaram colocar em prática o plano da mineradora para tentar minimizar o impacto ambiental na vila. Um deles deixou clara a falta de confiança nas medidas da Samarco: “Eles querem colocar esta boia – que é para conter petróleo derramado – para conter lama, e é óbvio que não vai resolver nada. A gente é pescador e eles acham que a gente é ignorante, mas a gente não é. Essa medida não tem lógica, se uma coisa é para conter petróleo – que fica por cima, na superfície – eu acho que não resolve nada para segurar a lama que está em toda a água”.

Ele tinha razão.

A prática da pesca e a sobrevivência por intermédio deste tipo de trabalho estão ameaçadas. Ninguém tem ideia de quando será possível pescar e consumir o peixe do Rio Doce ou do mar que recebeu a lama tóxica.

Um colega faz um apelo e pede atitude das autoridades: “Tomem uma providência, apareçam para ver a real situação da coisa, porque eles já colocam milhões no bolso enquanto isso os mais prejudicados somos nós que somos os mais fracos, o pescador, o ribeirinho, não só na área de pesca, mas tem muitos outros que tiram o sustento do rio de outras formas, que eles tomem uma atitude, porque nós vamos viver de quê? E nossos filhos?”

Neste mesmo dia, enquanto estávamos entrevistando os homens da pesca, a lama chegou em Linhares. Era o começo da tarde do dia 19 de novembro. Sobre a ponte, dava para ver o rio, agora intensamente marrom.

No cais, um aglomerado de gente acotovelava-se para ver de perto a tragédia. Agora, ninguém estava nos barcos, nenhum voluntário salvava peixes, só havia uma mulher lavando roupa nas águas sujas como quem não quer aceitar que a rotina será outra a partir de agora.

E agora, o que esperar? A morte dos peixes, a contaminação das águas da região, da vegetação, a fuga dos animais que se alimentavam das águas do Rio Doce? No céu, bandos de milhares de gaivotas atiçavam-se em sobrevôo frenético, sem saber que não haverá amanhã.

No domingo, dia 22 de novembro, a mais de 700 quilômetros de onde tudo aconteceu, o rio Doce, vermelho de lama e ferro, sem vida, lançou sua imundície no mar verde. A diferença de densidade e temperatura entre os dois fluidos fez com que eles se não se misturassem por um bom tempo. E formou-se um desenho sinistro, que lembrava uma imensa bandeira com a logomarca da Companhia Vale, sócia da BHP Billiton no maior acidente ambiental da história do Brasil.

Vale lembrar os versos de João Cabral de Mello Neto em “Morte e Vida Severina”:

“— E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
— Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.”