O futuro é logo ali – e começa em 2015

Com a reunião de governantes do mundo inteiro em Paris, para a Conferência do Clima da ONU, mais do que nunca, é hora de nos unir e decidir o futuro que vamos desenhar para o planeta e para todos nós


“Precisamos reduzir drasticamente as emissões dos chamados gases de efeito estufa”

texto Pedro Telles, da campanha de Clima e Energia do Greenpeace

foto Joost Rentema / Greenpeace

2015 deve acabar com um recorde nada agradável: o ano com a maior temperatura média global registrada até agora. Isso não é, no entanto, uma grande novidade. Ao longo da última década, sete anos entraram na lista dos dez mais quentes da história humana. O aquecimento global e as mudanças climáticas que o acompanham são observados faz tempo, com consequências reais e que já estão sendo sentidas. Alguns exemplos são a elevação do nível do mar, secas e enchentes cada vez mais frequentes e intensas, e furacões cada vez mais ameaçadores – colocando todos nós em risco e afetando especialmente os mais pobres.

Ao mesmo tempo, 2015 caminha para ser o ano em que quem trabalha por soluções para o desafio da mudança do clima falou mais alto do que aqueles que lucram mantendo as coisas como elas estão. Em diversos cantos do mundo, cresceu com força um movimento internacional que pede a governos, empresas, universidades, igrejas e fundações para retirar investimentos em combustíveis fósseis, como petróleo e carvão. A queima disso é a principal causa do aquecimento global.

Governos de todos os países-membro da ONU se comprometeram a acabar com o desmatamento de suas florestas até 2020, endereçando outra grande fonte do problema. Esse compromisso é importante e exigirá mudanças de rota em diversos lugares, incluindo o Brasil. Até mesmo diversas empresas que, há pouco tempo não falavam da questão climática, agora buscam e atuam por soluções. É um sinal positivo, apesar muitas ainda promoverem falsas soluções.

É nesse contexto que acontece em Paris, entre 30 de novembro e 11 de dezembro, a 21ª Conferênca do Clima da ONU, a importante COP 21. O encontro deve gerar um novo acordo entre países para enfrentar o desafio das mudanças climáticas. O objetivo é evitar que o mundo aqueça mais do que 2°C (tomando como referência a temperatura média antes da Revolução Industrial), limite além do qual as consequências do aquecimento global se tornarão drásticas e imprevisíveis. Já aumentamos quase 1°C. Para não superar o teto aceitável, precisamos reduzir drasticamente as emissões dos chamados “gases de efeito estufa”. Como mencionado acima, eles resultam da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e de outras práticas como a agropecuária insustentável e a má gestão do lixo que descartamos.

Muitas cartas já estão na mesa para essa conferência. Dos 196 países envolvidos nas negociações, 150 já apresentaram compromissos nacionais de redução de emissões e, em grande parte, mostram disposição para chegar a um acordo global. EUA e China, maiores economias do mundo e principais responsáveis pelo problema, junto a diversas outras potências mundiais, deram sinais claros de disposição para enfrentar o desafio. E isso não apenas no discurso, mas também implementando políticas públicas relevantes e fazendo investimentos significativos para a transição rumo ao nível zero de emissões de gases de efeito estufa. Os governos dos países que são mais afetados pelas mudanças climáticas por sua maior dificuldade para se adaptar, como pequenas ilhas-estado e países menos desenvolvidos, ganham crescente apoio em seu hercúleo esforço por convencer outros a elevar a ambição de suas ações.

Contudo, é uma ilusão acreditar que a conferência de Paris resolverá todo o problema. Se somarmos todos os compromissos já apresentados por cada país, ainda ficamos longe da redução de emissões necessária. Análises independentes indicam que a maioria das nações ainda deixa a desejar em relação à ambição de seus compromissos. O Brasil, por exemplo, poderia fazer muito mais para combater o desmatamento e promover novas energias renováveis.

São grandes as chances de um acordo global sair dessa conferência. Só que para ser considerado um bom acordo, ele precisa de duas coisas: estabelecer que os compromissos serão revisados a cada cinco anos para a ambição de todos os países ser elevada regularmente e determinar a meta de zerar as emissões até 2050, o que estimularia uma reorganização da economia mundial. Não à toa, centenas de organizações de todo o mundo estão pressionando governos a se comprometerem com esses pontos cruciais.

Paris, assim, não é o começo nem o fim do processo. O mais importante é o que está acontecendo na realidade nacional de cada país. A ONU, afinal, não é uma entidade independente, mas uma soma de governos, que reagem aos acontecimentos em seus países. Os presidentes, ministros e negociadores que estarão na COP 21 têm a chance de refletir em suas posições todo o esforço que está sendo feito por aqueles que já estão mudando a realidade na prática. Eles têm um papel crucial a desempenhar para ajudar a fazer a transformação acontecer mais rápido.

O ano de 2015 aponta qual caminho temos que seguir para um futuro próspero e seguro. Nem mesmo os recentes atentados terroristas em Paris dimunuíram nossa união e fraternidade. Esse acontecimento lastimável só reforçou como é importante nos mantermos unidos para resolvermos as questões de nossos tempos, sejam elas sociais ou ambientais.