Rastro de destruição

Desde que nós, seres humanos, surgimos na Terra, nada mais foi o mesmo: nosso modo de vida e de consumo está, há séculos, alterando a vida e os ciclos naturais do planeta – e isso vai desde a liberação de gases poluentes até a extinção de espécies

texto Thaís Herrero ilustração Daniel Vincent

Faz 200 mil anos que nossa espécie, o Homo sapiens, surgiu e habita a Terra. E há 11 mil anos, desenvolvemos a agricultura e as bases para chegar ao estágio de civilização atual – vivendo em cidades, consumindo recursos naturais, queimando combustíveis, fabricando objetos de plástico e tantas outras atividades nocivas ao meio ambiente.

Tudo o que fazemos por aqui impacta de alguma forma a natureza
– em maior ou menor grau. Algumas mudanças, no entanto, já estão transformando a Terra de forma irreversível.

Mudanças
no solo

Desde que aprendemos a plantar nossos alimentos e a domesticar animais, estamos transformando o solo, as florestas e outras vegetações.
Boa parte do que não é cidade hoje é pasto ou plantação agrícola.
Por isso, faz pelo menos 2 mil anos que o solo da Terra começou a mostrar sinais de desgaste devido a nossa presença por aqui. Alteramos cursos d’água, devastamos vegetações nativas e incluímos elementos químicos artificialmente. A biodiversidade e os ciclos naturais já não são os mesmos em boa parte do planeta.

Dos 130 milhões de quilômetros quadrados de terra no planeta (sem contar as áreas cobertas de gelo), já marcamos nossa presença em 101,5 milhões de quilômetros quadrados. Apenas 28,5 milhões de quilômetros quadrados têm nenhuma ou pouca alteração – como a presença de linhas de transmissão ou uma linha de trem.

28,5 milhões de quilômetros quadrados


Terras selvagens:
áreas como a floresta Amazônica, da Sibéria,
o deserto do Saara e de Gobi.

Ciclo do nitrogenio

O nitrogênio é essencial para a vida na Terra e para a fertilidade do solo. Os agricultores sabem bem disso e, há anos, vêm adicionando o elemento químico como adubo, aumentando a produtividade e acelerando o crescimento de suas plantações. Em larga escala e durante tanto tempo, a prática causou um desequilíbrio na quantidade desse elemento presente na natureza e em seu ciclo natural.

O nitrogênio (N2) compõem 78% do ar na atmosfera, mas as plantas precisam de bactérias para absorvê-lo. O que não é aproveitado pela vegetação volta ao ar como gás novamente. No ciclo natural, isso acontece em quantidades equilibradas.

Para desenvolver a agricultura, o homem adiciona nitrogênio na forma de fertilizantes. Só que grandes quantidades são perdidas e retornam à atmosfera. Quando reagem com vapor d’água no ar, dão origem à chuva ácida ou ao óxido nitroso (N2O), um dos gases de efeito estufa.

Biodiversidade

Nos últimos 500 anos, a atividade humana é apontada como a causa da extinção de 869 espécies de animais e vegetais. E o número de espécies ameaçadas de desaparecer passa dos 16 mil.

Esses são dados da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), que avaliou apenas 3% das 1,9 milhão de espécies descritas no mundo. Ou seja, a ameaça pode ser bem maior.

O desaparecimento de algumas espécies é um processo natural, que ocorre ao longo dos anos. Só que a presença da humanidade – e principalmente, suas ações – fez com que a chance de uma espécie sumir fosse pelo menos mil vezes maior. Por isso, nos últimos 50 anos, a rapidez com que algumas espécies foram perdidas levou cientistas a acreditar que nós estamos causando a sexta grande extinção em massa das espécies. As outras cinco aconteceram por causas naturais, como o asteroide que limou os dinossauros há mais ou menos 65,5 milhões de anos.

Queimando nossos estoques de carbono

Por milhões de anos, matéria orgânica foi se acumulando em nosso planeta, formando grandes depósitos de hidrocarbonetos (como petróleo, carvão, gás natural) no subsolo. Desde a Revolução Industrial, estamos usando esses estoques de maneira acelerada para produzir energia, seja para a transformação em eletricidade (em termelétricas) ou para a utilização direta como combustível. Parte desse estoque também é utilizado na indústria química para produzir materiais como o plástico.

Até agora, já jogamos de volta na atmosfera cerca de 365 bilhões de toneladas de carbono. Só o desmatamento contribuiu com mais de 180 milhões de toneladas. Isso aumentou em 40% a concentração de CO2 na atmosfera, comparada ao período pré-Revolução Industrial.

Essa liberação de carbono acontece por meio do gás carbônico, que, em excesso, aumenta o efeito estufa e aquece o clima no planeta.

De 1880 até 2012, a temperatura subiu 0,85°C. Segundo os cientistas, no melhor cenário – em que os países se comprometem a reduzir muito o efeito estufa–, o clima por aqui vai subir ainda 1°C.

Entre o ar e o mar, há trocas gasosas, principalmente de gás carbônico (CO2), que é absorvido, e oxigênio, liberado pela ação de algas. Como estamos lançando muito CO2 no ar, os mares estão absorvendo muito desse gás em pouco tempo, desequilibrando o sistema.

Desde 1800, os mares já absorveram um terço do CO2 que lançamos. São 150 bilhões de toneladas. Isso tornou as águas 30% mais ácidas.

Mais consequências da acidificação

Desaparecimento de espécies de peixes, como o peixe-palhaço, de mariscos, mexilhões e caracóis, que dependem das conchas para sobreviver
Diminuição da concentração de carbonatos, essenciais para a construção de corais e conchas. É como se o mar estivesse com osteoporose
Alteração da quantidade de luz e da propagação de som, tornando os oceanos mais ruidosos
Extinção do fitoplâncton, alimento de alguns animais marinhos

Consumo de recursos

No dia 13 de agosto deste ano, já havíamos consumido todos os recursos naturais existentes na Terra, os quais deveriam durar o ano inteiro. Isso significa que estamos indo além do que a natureza é capaz de repor.

O cálculo é feito desde 2000 pela organização Global Footprint Network (GFN). Tem como base o espaço que gastamos para produzir alimentos e produtos, tanto em terra firme quanto no mar, e a quantidade de recursos naturais biológicos renováveis, como grãos, vegetais, carne, peixes, madeira e fibras que demandamos para manter o nosso estilo de vida.

A cada ano, entramos no cheque especial mais cedo. A GFN chama isso de Dia da Sobrecarga da Terra, afinal, depois da data, tudo o que estamos consumindo está forçando os recursos que poderíamos ter no futuro.

Fontes:

Sites: Welcome to the Anthropocene - www.anthropocene.info/anthropocene-timeline.php; Global Footprint Network, União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN)

Livro: A sexta extinção – Uma história não natural, de Elizabeth Kolbert. 2015. Ed Intrínseca.

Texto: “Have we entered the "Anthropocene?", de Paul Crutzen.