Entrevista

Carlos Rittl: “Brasil parece estar na
contramão da sua vocação natural”


Reportagem: Marina Yamaoka

A vigésima edição da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 20) chegou ao fim em dezembro do ano passado. Durante duas semanas, negociadores de 192 países discutiram em plenárias e em salas fechadas. Enquanto isso, jornalistas e membros de ONG’s estavam presentes acompanhando os rumos do que viria formar o rascunho do próximo acordo global do clima, que deve ser assinado no final deste ano, em Paris, e substituir o Protocolo de Kyoto.

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, rede brasileira de articulação em torno das mudanças climáticas globais, era um dos que acompanhava o processo com atenção e apreensão. Com doutorado em biologia tropical e recursos naturais pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Rittl tem se dedicado ao tema das mudanças climáticas nos últimos dez anos.

Em tempos de crise hídrica e crise no setor elétrico, o tema das mudanças climáticas nunca esteve tão em alta no Brasil. A seca nos reservatórios das hidrelétricas e, consequentemente, o acionamento das termelétricas para garantir o abastecimento do país fizeram com que as emissões aumentassem em 500% entre 2009 e 2013. E mesmo assim, ao que tudo indica, vai faltar água e energia.

Até o fim deste semestre, o Brasil terá que apresentar suas metas nacionais que irão compor o novo acordo global. Sobre ele, o especialista tem uma certeza: precisaremos de mais ação. “Teremos que levar mais do que boas ideias”, diz Rittl, “do ponto de vista diplomático é importante ter ideias boas e inovadoras, mas do ponto de vista político temos que trazer ambição pra mesa de discussão”. Sobre essas perspectivas políticas e climáticas, e suas intersecções com as crescentes crise de falta de água e de energia, entrevistamos o especialista em uma quente manhã de janeiro em São Paulo.

Leia aqui os melhores momentos da conversa.

Greenpeace: Como você avalia a Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), um dos principais instrumentos brasileiros no tema?

Carlos: Hoje, a gente pode dizer com certeza que o progresso que tivemos em políticas sobre mudanças do clima e a própria PNMC são interessantes, mas o problema é que elas não são suficientes e não fazem frente a toda a lógica de desenvolvimento ‘retrógrada’ que nós temos no país. Há um descompasso entre a PNMC e as diretrizes de outras políticas de governo. Se a gente observa os investimentos realizados em áreas como infra-estrutura, agricultura e pecuária, energia, indústria, a gente não tem um alinhamento destes [investimentos] e das políticas por trás desses investimentos com a política de clima.

Você pode dar um exemplo?

Um exemplo é o setor de energia que, ao mesmo tempo em que seu plano setorial de mitigação [redução de emissão de gases de efeito estufa] menciona investimentos em fontes de energias renováveis, há o Plano Decenal de Energia, do Ministério de Minas e Energia, indicando que 70% dos investimentos para a próxima década serão em combustíveis fósseis, altamente poluentes em termos de emissões de gases de efeito estufa.

De acordo com o Observatório do Clima, as emissões brasileiras aumentaram 7,8% no ano de 2013, colocando o Brasil entre os maiores emissores mundiais. Você acha que o que o país tem feito é proporcional ao tamanho deste desafio que tem que enfrentar?

Em 2013, o que basicamente provocou o aumento das emissões foi o aumento do desmatamento na Amazônia e o aumento do consumo de combustíveis fósseis. Isso tanto na nossa matriz de transporte, em função do aumento do consumo de gasolina e de políticas voltadas para o fomento da atividade de produção de carros, quanto na de eletricidade.

Em um país que tem quase 80% da eletricidade vindo de hidrelétricas, o que explicaria o aumento da participação de combustíveis fósseis no setor?

Tivemos um aumento importante nos últimos anos em função da vulnerabilidade que nós temos na nossa matriz às mudanças climáticas. Temos alta dependência de uma única fonte, por sua vez extremamente dependente do nível dos reservatórios e estes alcançaram níveis baixíssimos. Nosso back up são fontes térmicas movidas a combustíveis fósseis que foram acionadas, pelo menos nos últimos dois anos, em plena intensidade, gerando emissões para o setor de eletricidade também.

Hoje, somos uma das maiores economias mundiais, um dos maiores emissores e temos que assumir nossas responsabilidades.
Carlos Rittl

O que poderia ser uma solução diante da atual vulnerabilidade?

Nós temos um potencial enorme de fontes renováveis muito pouco exploradas no Brasil. Aquelas onde a gente teve um crescimento, como energia eólica, que foi um crescimento significativo e importante nos últimos anos, ainda aproveita muito pouco perto de todo nosso potencial. A gente precisa de visão estratégica no país para definir quais caminhos a gente quer seguir no contexto em que mudanças climáticas é um dos maiores desafios ao desenvolvimento de qualquer nação. Infelizmente, a gente ainda não encara dessa maneira no Brasil.

Como você acha que o Brasil tem encarado a questão?

O Brasil tem uma posição bastante conservadora embora tenha plenas condições de assumir compromissos compatíveis com a sua responsabilidade, com o tamanho da sua economia e da sua capacidade. O país ainda adota o discurso de quem tem que tomar as primeiras ações, as ações mais profundas, são os países desenvolvidos e como o Brasil é um país em desenvolvimento tem direito de crescer e, em tese, teria o direito de poluir. Não estamos mais nesse momento de ficar discutindo se devemos ou podemos seguir um padrão de desenvolvimento que foi o adotado por outros países com altas taxas de emissões de gases de efeito estufa.

Na prática, nós podemos zerar o desmatamento no país, reverter a tendência atual de investimentos em combustíveis fósseis e investir muito mais em fontes renováveis de energia, além do potencial imenso para redução das emissões na agricultura e pecuária.

Você considera que de alguma forma o Brasil está caminhando em direção a essa transição?

Não, o Brasil ainda não está caminhando para isso e ainda se sustenta no discurso de que já fizemos muito, de que nossa matriz energética é mais limpa do que a média de todos os outros países e de que reduzimos o desmatamento. Nosso discurso olha pra trás, fica olhando no retrovisor, ao invés de olhar para frente e ver que o mundo em que vivemos já não funciona mais baseado nessa lógica. Hoje, somos uma das maiores economias mundiais, um dos maiores emissores e temos que assumir nossas responsabilidades. É muito míope permanecer com a visão de que já fizemos muito.

Pensando no setor de energia no Brasil, o que poderíamos fazer?

Podemos investir no potencial de energias renováveis que ainda é subaproveitado no país. No ano passado, tivemos o primeiro leilão de energia solar no qual foi contratado mais de 1 GW de projetos. Foi extremamente importante e foi, talvez, um dos leilões de energia no país em que houve maior competitividade. A contratação de 1 GW [o equivalente a 1 milhão de telhados abastecidos com energia solar] foi comemorado pelo governo, disseram que este foi um “grande passo” e que era o “momento da energia solar”.

E não era? O que este número representa?

Mesmo considerando o leilão, a projeção do governo ainda é o de chegar em 2023 com um pouco mais de 2,4 GW, o que é baixo diante de todo o potencial que temos. Para termos noção, a China a cada dois meses coloca um pouco mais de 2 GW de energia solar na sua matriz energética e a Arábia Saudita vai chegar em 2020, sim, a Arábia Saudita, que tem muito mais petróleo que o Brasil e uma população muito menor que o Brasil, chegará no final da década com 6 GW de energia solar segundo os planos do seu governo.

Além deste exemplo, o que mais poderia mudar na matriz energética brasileira?

Parece que o Brasil caminha na contramão da sua vocação natural, que são as energias renováveis. Tenho a impressão de que chegamos à era do pré-sal com uns 60, 70 anos de atraso, a própria Agência Internacional de Energia demonstra em seus estudos que as reservas de combustíveis fósseis vão ter que permanecer no subsolo se estamos falando sério sobre respeitar o limite de 2oC de aquecimento global. É fundamental repensar o cenário atual de investimentos e a projeção de longo prazo de investimentos em energia no Brasil. A gente tem que parar com essa visão de que o Brasil já fez muito, que a nossa matriz é muito mais limpa do que a de outros países e sair dessa zona de conforto. Podemos investir em fontes renováveis de energia, de baixo impacto, modernas e que são parte da economia do século XXI.


Compartilhe esta matéria


Leia também

Compartilhe a edição #2 da Revista Greenpeace