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O longo caminho de Ruth Buendía


Reportagem: Marina Yamaoka
Fotografia: Eliza Capai

Mesmo na era digital com email, celular, whatsapp e Facebook, entrar em contato com Ruth Buendía Mestoquiari não é uma tarefa fácil. A presidente da Central Ashaninka do Rio Ene (CARE), organização que defende os direitos indígenas das 17 comunidades Ashaninkas que se encontram no rio Ene, na Amazônia peruana, tem uma agenda mais concorrida do que muitos ministros e, às vezes, é possível ter que esperar durante meses por uma resposta afirmativa de que, sim, ela poderá participar de uma reunião ou conceder uma entrevista.

Cuidar para que estas comunidades tenham direitos básicos como acesso a água potável e professores que deem aulas em espanhol e no idioma Ashaninka para as crianças e, ao mesmo tempo, proteger os territórios indígenas de invasões são apenas parte da agenda de Ruth, que está quase sempre completamente lotada.

Em 2014, ela ganhou o prêmio Goldman, considerado o Nobel do Meio Ambiente, e ficou mundialmente conhecida. “Ter o respaldo de um prêmio como este é importante porque ajuda a evidenciar nossa pauta, mas é difícil conciliar minha agenda de trabalho com a vida pessoal. Sinto falta de ter mais tempo para os meus filhos”, diz Ruth, liderança indígena, símbolo de luta e resistência, e mãe de cinco crianças.

Além do Goldman, o que deu projeção a Ruth e aos Ashaninkas – a mais populosa etnia indígena do Peru – foi a luta emblemática e exitosa contra a construção de hidrelétricas no rio Ene e no rio Tambo, sendo a principal delas a de Pakitzapango, que seria construída próxima à Chiquireni e que inundaria comunidades indígenas para gerar energia que seria exportada para o Brasil.

Pakitzapango, o calcanhar de Aquiles

“A razão de ser Ashaninka é ter um território. Se as barragens inundam o vale, para onde devemos ir? Seria como desaparecermos”, afirma Ruth, que ficou sabendo da construção das hidrelétricas por uma notícia de rádio quando estava no escritório da CARE, em Satipo, em meados de 2008.

Nesta mesma época, as comunidades já enfrentavam problemas com exploração de madeira ilegal e com a Pluspetrol, empresa petrolífera argentina que ganhou concessão para exploração do Estado peruano sem ter consultado as comunidades locais. Quando ouve sobre o anúncio das barragens, Ruth decide buscar mais informações para evitar que estas grandes obras saíssem do papel e trouxessem impactos para seus irmãos, que é como considera todos Ashaninkas.

Trabalhou junto a aliados e outras organizações como a Rainforest International, e buscou ajuda de advogados para descobrir exatamente o quê era o projeto e quais seriam os impactos para as comunidades do rio Ene. Entrou em contato com o Ministério de Minas e Energia peruano, “algumas vezes obtive resposta, outras não. E na maior parte do tempo, um questionamento nosso levava meses para ser respondido.” Na busca por mais esclarecimentos, teve que ir inúmeras vezes até Lima, capital do País, caminho que leva quase 10 horas para ser percorrido de ônibus.

Enquanto isso, Buendía unia e se articulava com cada uma das 17 comunidades: levava vídeos que explicavam o que havia acontecido em outras regiões que haviam recebido projetos de hidrelétricas, quais seriam os impactos para a população local e para o meio ambiente e explicava que, por lei, eles deveriam ter sido consultados previamente sobre se queriam ou não que as obras ali acontecessem, o que não foi feito em nenhum momento no caso dos Ashaninkas. Ao final, ela acabou estabelecendo uma forma de ‘auto-consulta’ na qual perguntava aos chefes das comunidades sua posição em relação a hidrelétrica. Com o consenso do ‘não’, Ruth se sentiu respaldada para dar prosseguimento à luta, encontrar uma forma de atingir o calcanhar de Aquiles e barrar a construção da hidrelétrica de Pakitzapango.


Washington, D.C

Em 2010, dois anos depois ter escutado a notícia no rádio, Ruth se encontra em Washington, nos Estados Unidos, na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Lá, também estão representantes do Ministério de Minas e Energia peruano, “tão difíceis de encontrar em meu próprio país, mas acessíveis diante da comunidade internacional”, critica Buendía. A combinação entre primeira viagem para os Estados Unidos e a falta de domínio do inglês a deixou nervosa e ansiosa, mas quando pensava que tinha o apoio de seus irmãos, sentia-se mais segura, afinal não estava ali por interesses pessoais, mas representando o coletivo dos Ashaninkas.

Durante a reunião da CIDH, foi apresentado o posicionamento dos indígenas em relação à obra e evidências de falta de diálogo. Meses mais tarde, Ruth fica sabendo por uma jornalista peruana que a Odebrecht – empreiteira brasileira responsável pela obra de Pakitzapango – decidiu retirar-se temporariamente e adiar seus planos. “Ficamos todos muito aliviados e sabemos que esta foi uma grande conquista. No entanto, também sabemos que os interesses que estão em jogo na nossa região são muito grandes e que precisamos estar sempre de olho nas notícias para evitar surpresas desagradáveis.”

Passado de violência, presente de ‘terrorismo econômico’

Ruth unificou o povo Ashaninka. Antes disso, porém, ela própria superou uma história traumática quando os peruanos estavam começando a se recuperar dos efeitos da luta armada das décadas de 80 e 90.

Aos treze anos, seu pai foi assassinado por Ashaninkas que acreditavam que ele fazia parte da guerrilha Sendero Luminoso. Sua família – mãe e cinco irmãos – acabaram sendo levados para um tipo de campo de concentração do Sendero Luminoso improvisado no meio da floresta. Como ali a comida era escassa, Ruth e seus irmãos saiam escondidos para buscar caramujos no rio ou mandioca, e após um ano, ela consegue convencer sua mãe de que era melhor fugir e se esconder na floresta do que permanecer com os guerrilheiros.

“Minha mãe estava muito doente e fraca, tinha malária e sofria psicologicamente com a perda do meu pai”, diz Ruth. “Ela dizia que caminharia para escaparmos, mas não conseguia dar muitos passos. Disse que iria carregá-la no colo, afinal, se era capaz de levantar sacos de mandioca pesada poderia levá-la comigo. Duvidei se conseguiria, mas quando a peguei em meus braços, percebi que ela era leve como uma pluma.”

Passam alguns meses escondidos na floresta, até que decidem procurar uma base militar para obter refúgio. Sua mãe tem dúvidas novamente sobre partir porque correm o risco de serem mortos e Ruth, cansada de viver com medo, só consegue pensar: “se querem nos matar, que nos matem.”

Eles alcançam a base de Chiquireni, onde aqueles que tinham familiares em outras cidades são incentivados a partir. É o caso de Ruth e sua família, que se mudam para Satipo para viver com uma tia, irmã de sua mãe.

Não conseguindo sustentar todos os filhos, a mãe de Ruth a envia para Lima, onde vai trabalhar como empregada doméstica. “Mas eu queria terminar meus estudos e por isso voltei para Satipo”, conta Ruth que, ao regressar, trabalhou em diferentes ofícios – cozinheira, em laboratórios de exame – e retomou os estudos enquanto criava sua primeira filha.

É durante um dia de trabalho em uma Jugueria – espécie de loja de sucos – que um cliente pergunta se ela é Ashaninka e se ela sabe que há uma organização que se dedica exclusivamente à proteção dos direitos indígenas. Ruth desconhecia a CARE, mas fica curiosa e passa a fazer cursos de formação de liderança e contabilidade. É como voluntária que ela volta às comunidades do rio Ene para ajudar os moradores a obterem novos documentos de identidade, muitos dos quais perdidos durante a guerra contra o Sendero.

Decidida a cuidar do futuro dos Ashaninkas, candidata-se à presidência da organização em 2005 e, com apoio massivo das mulheres, é eleita. “Não foi uma decisão fácil, visto que ainda havia muito machismo”, reconhece Ruth. Hoje, quando chega a uma comunidade, ela senta-se nos bancos e conversa e aconselha os chefes homens das comunidades, enquanto que das outras mulheres espera-se que elas continuem sentadas em trançados de palha no chão de terra batida.

“Nosso passado de guerra e terrorismo nos marca, passamos por uma luta armada e não queremos passar por um novo tipo de terrorismo econômico que é o que as usinas hidrelétricas representam”, confessa Ruth. “A história do Sendero ainda está viva, por isso reivindicamos ao Estado para que não deixem de olhar por nós. Os Ashaninkas não querem conflito, queremos viver bem.”

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