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#OcupeEstelita:

por um novo Recife


Reportagem: André Sampaio/Heloisa Motta

Mais de 24.270 seguidores no Facebook. Apoio de 145 organizações e movimentos sociais brasileiros. Uma hashtag que saiu do Recife e atravessou o País. O sentimento de apoderamento transformado em poesia e música, atividades educativas, shows e muita arte. A pauta local que virou discussão em outras cidades, outras praças, outros cais.

Ao questionar a demolição do cais Estelita para a construção um complexo empresarial e residencial com prédios de 40 andares, o Movimento#OcupeEstelita mobiliza não só moradores da cidade de Recife como de todo o Brasil desde o dia 21 de maio, e mostra ao mundo o que a resistência sem violência é capaz.

Foto: Rafael Vilela-Mídia Ninja
Foto: Rafael Vilela-Mídia Ninja

Manifestantes, ativistas, cidadãos, famílias completas (neto, filho, pai, avó, tia, cachorro) e até curiosos integram uma paisagem diversa e inusitada num dos pontos mais importantes da cidade.

Há alguns anos o coletivo Direitos Urbanos se reúne em frente aos antigos armazéns do cais José Estelita para debater o uso da histórica área com cerca de 100.000m². O grupo acredita no potencial de uso do espaço em prol da promoção do direito à cidade e da diminuição da segregação social que hoje domina o Recife.

Justamente o que condena é o que propõe o projeto Novo Recife, do consórcio formado pelas empresas Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, que há seis anos adquiriu através de leilão público parte da área em questão, que antes pertencia ao espólio da Rede Ferroviária Federal. O grupo planeja a construção de um complexo empresarial e residencial de pelo menos 12 torres com até 40 andares, que, apesar de apresentar soluções “inclusivas” no site do empreendimento – como construção de um parque, uma biblioteca e uma ciclovia, além de apontar um “impacto positivo no perfil sócio-econômico do bairro de São José”, é acusado pelo movimento #OcupaEstelita de não apresentar um estudo técnico de impacto socioambiental.

“A área foi vendida para iniciativa privada sem nenhum planejamento urbano. Além de ilegal, esse projeto intensifica problemas endêmicos da cidade, como a mobilidade urbana, a falta de áreas de lazer, além de não dialogar com seu entorno”, acusa um documento formulado pelo grupo, que garante haver procurado o consórcio para dialogar, mas recebeu como resposta a falta de interesse do mesmo.

Bala de borracha

No intuito de garantir a legalidade no processo, o movimento ocupou a área referida quando os responsáveis pelo projeto começaram a derrubada de edificações históricas dentro do terreno. Desde então, a ocupação tornou-se um espaço de debate sobre os problemas sociais e urbanos que Recife enfrenta, além de proporcionar atividades culturais e artísticas à população, fomentando o compartilhamento do local e a troca de ideias sobre o uso da cidade.

O grupo, no entanto, foi posto à prova no dia 17 de junho, durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo, quando foi surpreendido por uma violenta ação policial. Com balas de borracha, gás de pimenta, chicotadas e golpes de cassetetes, a polícia feriu muitos dos que ocupavam o espaço no momento da ação. O intuito da operação era dispersar os manifestantes para que as empreiteiras colocassem o maquinário de construção para dentro da área ocupada, além de um aparato que demarcaria o espaço com arame farpado, cães, câmeras e seguranças armados.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Aenean euismod bibendum laoreet. (Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace)
Foto: Daniel Carvalho

Apoio Nacional

Apesar do esforço das construtoras e da prefeitura em amenizar a ação violenta, diversas entidades da sociedade civil e veículos da imprensa, nacionais e internacionais, repercutiram o episódio, dando voz ao movimento e atraindo mais simpatizantes à causa. Assim, o que pretendia deslegitimar o movimento e coagir seus participantes teve o resultado inverso: uniu e fortaleceu ainda mais os que sonham com uma cidade mais inclusiva.

“O dia da reintegração de posse foi um dia de guerra, de tristeza. Mas foi também o dia em que vi centenas de pessoas compartilharem o mesmo sentimento que o meu, ali, na rua. Elas sabem o que é humanidade, encaram a desabitação da cidade (e da vida de uma forma geral) e conseguem agir, pensando que algo novo pode ser criado”, avalia a psicóloga e ativista Maria Heráclio, integrante do movimento.

Resistência

Ocupe Estelita - Fotografia Rafael Vilela
Foto: Rafael Vilela-Mídia Ninja

Mesmo com a violência e a pressão exercida por parte do governo, o movimento resiste. Artistas como Criolo e Karina Buhr somaram forças. O músico paulistano fez um show na ocupação e compôs a música “Sangue no Cais” para a manifestação. Diferentes ONGs ao redor do globo também se manifestaram a favor do movimento.

“Me identifiquei com a necessidade dessas pessoas de um lugar melhor para se viver. É isso o que todos nós queremos. Elas têm de ensinar pro resto do país que é importante abrir os olhos, rever o que é realmente importante pra nós, enquanto seres humanos, seres sociais”, declara Criolo.

Movimentos de ocupação nos grandes centros urbanos vêm ganhando cada vez mais força e trazem a importante característica da diversidade dos participantes, vindos dos mais diversos setores da sociedade. Independente de sua origem, têm como objetivo principal revitalizar locais ameaçados pela especulação imobiliária e pelo descaso do Estado.

“Me sinto dentro de uma família quando estou no Estelita. Um lugar onde tudo pode ser diferente, que a alegria e a beleza da vida não se apagam com balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogênio”, completa Maria.

Quando alguém ocupa o cais do Estelita, no Recife, nas redes, em outra cidade ou país, está também exercendo seu dever de cidadão. Por isso acreditamos na força democrática e mobilizadora do Ocupe. #OcupeSeusAmigos #OcupeSuasIdéias #OcupeSeuTrabalho #OcupeSuaCidade #OcupeoMundo e faça a mudança que você quer ver acontecer.

Clique aqui para assistir ao vídeo de “Sangue no Cais”, composição de Criolo para o Movimento Ocupe Estelita.

Assista ao vídeo Ocupe Estelita – pela participação popular no planejamento urbano


Veja mais fotos do movimento Ocupe Estelita

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