Juntos Somos Mais

Por trás da multiplicação


A trajetória e o empoderamento de trinta Multiplicadores Solares do Greenpeace

Por Heloísa Mota, da equipe de mobilização do Greenpeace Brasil
Foto: Otávio Almeida/Greenpeace

Com quase duas mil inscrições para apenas trinta vagas, posso dizer que a sensação que tive foi de que o projeto dos Multiplicadores Solares do Greenpeace foi mais concorrido do que ingresso para ver a final da Copa do Mundo. Posso estar exagerando, mas, como alguém quem teve que ler todas as inscrições, fazer entrevistas e ajudar a selecionar 30 pessoas inspiradoras e empolgadas para trabalhar com o tema da energia solar, posso afirmar que a tarefa – mesmo que prazerosa – não foi fácil.

Confira galeria de fotos dos Multiplicadores Solares

Não foi apenas a quantidade de inscrições que dificultou a seleção, mas também a motivação e as experiências que os candidatos apresentaram. Tivemos donas de casa e porteiros que queriam implementar um sistema solar em suas residências e aprender mais, estudantes universitários e engenheiros com vontade de se especializar em um assunto tão importante para o meio ambiente, além de pessoas envolvidas em projetos comunitários que queriam aproveitar o potencial do sol no trabalho que já desenvolviam.

O interesse demonstrado pelas pessoas por energia solar me deu a certeza de que o Greenpeace havia tomado a decisão acertada de trazer mais pessoas para trabalhar com o tema. Desde que foram treinados em abril deste ano, os trinta Multiplicadores Solares surpreendem com resultados positivos: participaram de audiências públicas para incluir energia solar nas pautas discutidas, estabeleceram parcerias com universidades e escolas públicas, desenvolveram projetos para instalações de painéis fotovoltaicos, iniciaram grupos de voluntários, palestraram em escolas, organizações não governamentais e para o setor empresarial, construíram fogões solares com moradores de rua, capacitaram lideranças indígenas e estão articulando com meios de comunicação e outros atores para a consolidação da energia solar no país. E é apenas o começo.

Capacitar os Multiplicadores

Buscávamos jovens nas cinco regiões brasileiras com experiência com articulação e desenvolvimento de projetos cujos valores e princípios fossem similares aos do Greenpeace. Os trinta selecionados são de todos os cantos do Brasil e com diferentes causas, eram escoteiros, bandeirantes, engenheiros, professores, jornalistas, designers, voluntários da organização, artistas, integrantes de movimentos sociais e ambientais.

Foto: Otávio Almeida/Greenpeace Legenda: Multiplicadores instalam 48 painéis solares na Escola Municipal Milton Magalhães Porto, em Uberlândia (Minas Gerais, 04/2015)
Multiplicadores instalam 48 painéis solares na Escola Municipal Milton Magalhães Porto, em Uberlândia (MG) em 2015 (Foto: Otávio Almeida/Greenpeace)

O primeiro encontro foi em São Paulo, para um treinamento que envolveu planejamento de atividades e projetos, intervenções criativas, políticas públicas e, claro, energia solar. Foram três dias de aprendizado, planejados para inspirar e dar conhecimento suficiente a estas pessoas, tornando-as aptas a identificar oportunidades e atuar estrategicamente, dando visibilidade à energia solar em seu contexto regional.

A segunda parte do treinamento foi durante as instalações das placas solares em escolas de Uberlândia (MG) e São Paulo (SP). Eles instalaram 90 painéis solares nos telhados das escolas, planejaram e executaram suas primeiras multiplicações para a comunidade escolar. Os jovens se sentiram empoderados por subir no telhado e instalar placas solares, e se tornaram companheiros de trabalho em pouco tempo.

Poucos puderam conter as lágrimas ao observar os resultados e o impacto das atividades realizadas com os quase 2.000 alunos que participaram do projeto nas duas escolas, que hoje geram parte da sua energia e, com a economia na conta de luz, desenvolvem mais projetos culturais para seus alunos; os benefícios vão muito além do poder da energia do sol.

Com diferentes estratégias, os Multiplicadores vêm liderando multiplicações e testando maneiras de mobilizar mais pessoas em todo o país ao comunicar e mostrar que a energia solar é uma solução viável para o Brasil.

Foto: Otávio Almeida/Greenpeace Legenda: Multiplicadores Solares transmitem seu conhecimento aos alunos da Escola Municipal Milton Magalhães Porto, em Uberlândia (Minas Gerais, 04/2015)
Multiplicadores Solares transmitem seu conhecimento aos alunos da Escola Municipal Milton Magalhães Porto, em Uberlândia (MG) em 2015 (Foto: Otávio Almeida/Greenpeace)

Era uma vez na Suíça e no Rio de Janeiro

Quando a instalação de 650 painéis solares foi concluída em uma escola pública de Trubschachen, um vilarejo no interior da Suíça, em 2014, a comunidade se reuniu para comemorar. Lanches foram preparados pela equipe de voluntários do Greenpeace Suíça e os moradores assistiram a celebração dos alunos.

Enquanto as crianças mais novas fantasiadas de sol cantavam, notei o sorriso orgulhoso de Retze, coordenador do projeto Juventude Solar há mais de vinte anos e responsável por reunir ali cerca de 50 pessoas envolvidas na campanha de Energia Renovável de vários escritórios do Greenpeace. Foi ao ver aquele sorriso que entendi a importância de tudo o que estava acontecendo.

Foto: Thomas Rickmann/Greenpeace Juventude Solar do Greenpeace na Suíça após instalação de painéis em escola pública (08/2014)
Juventude Solar do Greenpeace na Suíça após instalação de painéis em escola pública em 2014 (Foto: Thomas Rickmann/Greenpeace)

Pensei na visão alternativa sobre o mundo que mostrávamos àquelas crianças, que se sentiram responsáveis por ajudar a instalar um sistema que geraria sua própria energia.

No Brasil, o projeto Juventude Solar chegou em 2013, no Rio de Janeiro, quando foram instaladas 20 placas solares no Morro dos Macacos. O Greenpeace treinou vinte jovens, entre eles, voluntários e membros da comunidade, que ajudaram na instalação e continuaram fazendo trabalhos similares em comunidades locais.

Com a instalação do Morro dos Macacos, a campanha de Energia Solar do Greenpeace começava a tomar forma, demonstrando a importância do empoderamento das pessoas para atingir objetivos estratégicos. Com os Multiplicadores, queríamos inovar, testar novas métodos e aprimorar os resultados gerados pelo projeto Juventude Solar.

Profissão, emoção e uma canção

É uma sorte enorme ter tido a oportunidade de colocar esses multiplicadores em contato, para eles poderem ampliar a consciência de tudo que são capazes de fazer juntos. A liderança que eles exercem é admirável e o prazer que eles sentem em trabalhar conosco nos inspira a continuar lutando pelo melhor acontecer.

Foto: Caio Paganotti/Greenpeace Alunos da Escola Municipal Milton Magalhães Porto, que participaram do projeto em Uberlândia (Minas Gerais, 04/2015)
Alunos da Escola Municipal Milton Magalhães Porto, que participaram do projeto em Uberlândia (MG) em 2015 (Caio Paganotti/Greenpeace)

Quando eu comecei a trabalhar no Greenpeace há pouco mais de um ano, pensei que teria a chance de fazer algo heroico. Não poderia imaginar que o meu maior ato de heroísmo que seria garantir que os nossos Multiplicadores e voluntários se sentissem fortes e poderosos para correr atrás das suas causas e ideais.

Um dos momentos especiais que me marcou nesse projeto foi quando os Multiplicadores e eu voltávamos do primeiro dia de instalação das placas fotovoltaicas na escola de São Paulo. Na escada rolante encontramos, um trompetista tocando “Trem das onze”, alguns de nós começaram a cantar acompanhando o músico e, em menos de 20 segundos, estávamos todos cantando subindo as escadas, despreocupados com a cara de espanto dos usuários do transporte público.

Lá fora, encontramos um morador de rua que cantou e sambou conosco até que terminamos toda a letra da música dos Demônios da Garoa e seguimos alegres nosso caminho pelo centro da cidade. Quando percebi que estava com pessoas com coragem o suficiente para cantar sem se importar com os olhares alheios de desaprovação ou surpresa, tive certeza de que multiplicar o sol seria apenas um detalhe. Pessoas assim serão capazes de multiplicar qualquer coisa boa, e torçamos para que elas escolham estar conosco, aprendendo e nos ensinando, mais uma vez.

A experiência de ser um Multiplicador Solar nas palavras de três deles

Juntos somos muito mais

por Aline Souza, Sete Lagoas, Minas Gerais

Aline Souza/Foto: Lipe Borges
Aline Souza/Foto: Lipe Borges

Vivemos numa sociedade que precisa de mudanças sociais, ambientais e econômicas, e anseio colaborar ativamente para isso. O projeto Multiplicadores Solares surgiu como uma grande oportunidade de disseminar essas sementes transformadoras, pois abrange todos esses aspectos. Ser uma Multiplicadora Solar foi o impulso que faltava para que eu me tornasse mais ativa e me incentivou a colocar a mão na massa.

Para além das instalações dos sistemas fotovoltaicos nas escolas públicas de Uberlândia e São Paulo, trabalhamos com a educação dos alunos, da comunidade e dos grupos interessados em compartilhar conhecimentos sobre energia solar. As experiências têm sido únicas e muito gratificantes. Ver a reação das pessoas quando entram em contato com o tema da energia solar pela primeira vez e a surpresa ao conhecer tantos benefícios do sol me ajudaram a descobrir um propósito e uma vocação: transformar a vida de pessoas com conhecimento, empatia, experiência e respeito.

Uma das formas que encontrei de transformar vidas é justamente o empoderamento de grupos em vulnerabilidade social como o de pessoas que cumprem penas privativas na APAC – Associação de Proteção e Apoio aos Condenados –  de Sete Lagoas, em Minas Gerais, na qual multipliquei meu conhecimento e pretendo desenvolver um projeto de energia solar.

Ser voluntária nesse projeto é realmente um marco na minha vida, tem contribuído muito para o meu autoconhecimento e desenvolvimento, e me fez encontrar pessoas que também acreditam e trabalham por um mundo melhor. Espero que mais jovens transformadores tenham a chance de conhecer e participar dessa revolução energética, levando a energia solar para suas realidades  e impactando as regiões que vivem, pois juntos somos muito mais.

A arte de mudar o mundo

por Natália Chaves, Rio de Janeiro

Natália Chaves/Foto: Caio Paganotti
Natalia Chaves/Foto: Caio Paganotti

Desde criança, eu quero melhorar o mundo. Ao longo dos meus poucos 20 anos, encontrei pessoas que me inspiraram e percebi muito cedo que também aprendia fora da escola e em cada situação vivida. Entendi ainda que aprender algo e não compartilhar o conhecimento adquirido não fazia sentido para mim. Desde aquele momento, eu me tornei uma multiplicadora.

Até os 17 anos, ainda não tinha me encaixado em nenhuma causa específica. Tudo mudou quando encontrei o Thomas (voluntário do Greenpeace), uma pessoa inspiradora e cheia de sonhos e ideais, que me mostrou a urgência de agirmos para proteger o planeta. Hoje, ele é meu amigo e companheiro e foi com o espírito de multiplicação de conhecimento, de sentimentos e de ações para proteger o meio ambiente, que aos poucos eu encontrei meu lugar no grupo de voluntários do Greenpeace no Rio de Janeiro. Depois de perceber como eu podia fazer a diferença que eu tanto queria, ficou mais fácil escolher faculdade, interesses e prioridades.

O primeiro projeto de energia solar do qual eu participei foi o Juventude Solar em 2013, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Entrei muito curiosa porque tinha pouco  envolvimento com energia solar e queria entender mais sobre a mágica de transformar energia luminosa em elétrica. Passei por um processo de aprendizagem e foi muito gratificante apresentar novos horizontes aos jovens de Vila Isabel e entender bem de perto o potencial que temos quando multiplicamos nosso conhecimento.

A partir de então, eu me apaixonei pelo trabalho com energia solar e por trabalhar com pessoas. Quando fui selecionada para fazer parte do projeto Multiplicadores Solares, fiquei muito feliz e, hoje, entendo que ser Multiplicadora não se trata de trabalhar em uma atividade ou ação isolada, nem é a mera reprodução de um tema. É ter essência de aventureira para sempre buscar saber mais e ter abertura para absorver e transmitir conhecimento.

Eu ainda quero melhorar o mundo, a única diferença de quando eu era criança é que agora eu sei como posso fazer isso acontecer.

A mágica da energia solar

por Moisés Moreira, Marechal Thaumaturgo, Acre

Moisés Moreira / Foto: Otávio Almeida
Moisés Moreira/Foto: Otávio Almeida

Meu primeiro contato com a energia solar foi em 2009, ainda estava no ensino médio e era voluntário do Centro Yorenka Ãtame, no Acre. Participei do projeto Pontos de Cultura, que implementou painéis solares, baterias e computadores em cinco comunidades indígenas. Algumas vezes, saíamos de madrugada para viajar de barco, transportar e instalar os sistemas geradores. Foi assim que entendi a importância da energia solar naquela região. Ali, era uma necessidade porque seria praticamente impossível conectar as aldeias à rede elétrica com linhas de transmissão devido às longas distâncias.

Foi nesse momento que também compreendi que a energia solar é uma solução subaproveitada. Os computadores que levamos para as comunidades e que são alimentados por energia solar servem para que as lideranças indígenas possam se comunicar mais fácil e rapidamente em caso de necessidade, como por exemplo, de alguma doença na comunidade.

Eu me senti fazendo parte da mudança na vida de cada uma daquelas pessoas daquele local e, ao final do projeto, estava feliz e realizado. Pode parecer simples ou pouco para quem está acostumado a ter acesso à eletricidade, mas vi a diferença que o projeto trouxe para a vida daquela comunidade e como estavam maravilhados. Com a energia solar e ferramentas de comunicação, conseguimos estreitar relações com estes povoados.

A experiência de ver um computador sendo ligado com energia solar me motivou a querer continuar trabalhando com o assunto. Mudei para Brasília para estudar engenharia ambiental e continuei buscando oportunidades para saber mais sobre energia solar. Foi assim que me inscrevi para ser um Multiplicador Solar. Com o projeto do Greenpeace, tive a oportunidade de resgatar um pouco da minha experiência anterior e estou aprimorando meus conhecimentos.

Hoje transmito as informações que tenho sobre energia solar, uma fonte tão importante e que deveríamos aproveitar melhor no Brasil. Em Uberlândia, a experiência de estar com as crianças e de ensinar sobre o que a energia solar pode fazer por nós foi incrível. Sinto que não fui quem escolheu trabalhar com energia solar, mas que foi o contrário, o tema me escolheu e este é um caminho sem volta que vou seguir trilhando.

Saiba mais sobre a experiência da multiplicação no Brasil:


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O Greenpeace instalou placas solares em comunidades em Minas Gerais e no Rio de Janeiro

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