Praticando

De remo no Xingu, uma rima de amor e dor


A Canoada Bye Bye Xingu celebrou as belezas do Xingu e despediu-se do rio que será para sempre transformado pela hidrelétrica de Belo Monte

Reportagem: Bruno Weis
Fotografia: Zé Gabriel Lindoso

Uma nova modalidade de ativismo. Uma expedição por uma paisagem em vias de extinção. Uma despedida. Um intercâmbio cultural entre brasileiros “urbanos” e comunidades indígenas e ribeirinhas. Uma celebração. Uma travessia épica de 110 quilômetros pelo Rio Xingu em canoas tradicionais, remada após remada. A Canoada Bye Bye Xingu, realizada em setembro do ano passado, foi tudo isso – e muito mais.

Organizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a associação Yudjá Aymix, a canoada reuniu 120 participantes de várias partes do Brasil que, durante três dias, desceram o rio Xingu desde a cidade de Altamira (PA) pelo trecho da Volta Grande do Xingu, exatamente o trecho do rio diretamente impactado pela hidrelétrica de Belo Monte, em construção desde 2010.

Quando a obra estiver concluída, o trecho acima da barragem até Altamira vai alagar, incluindo bairros inteiros da cidade. O trecho à jusante, por sua vez, terá sua “vazão reduzida”, o que pode comprometer a navegação, a pesca, a reprodução de peixes e portanto, a própria sobrevivência das comunidades que ali vivem. Por isso, a “paisagem em risco de desaparecer” no começo deste texto. E, também por isso, sensações contraditórias permearam toda a expedição. “Encantamento, revolta, entusiasmo, tristeza. A canoada potencializou esses sentimentos, misturados com o grau de intensidade que o Xingu tem de vida. E que Belo Monte tem de morte”, pontuou a antropóloga Anna Maria Andrade, do ISA.

Conduzidos pelos canoeiros Yudjá e Arara – as duas etnias indígenas que habitam a Volta Grande do Xingu – os participantes navegaram pelas águas escuras do Xingu por três dias, acampando em praias na beira do rio, ouvindo dos índios e ribeirinhos seus relatos sobre os impactos de Belo Monte que já estão acontecendo.

Entre eles: movimentação de terra, poluição de igarapés, circulação de pessoas desconhecidas em suas terras, explosões, iluminação noturna, redução de pontos de pesca, escassez de peixes e de caça. “Os impactos já se fazem sentir na vida das pessoas, enquanto as medidas mitigatórias e compensatórias previstas no licenciamento de Belo Monte estão bastante atrasadas”, pontua Marcelo Salazar, que coordena o escritório do ISA em Altamira. Saiba mais sobre Belo Monte clicando aqui.

Encantamento, revolta, entusiasmo, tristeza. A canoada potencializou esses sentimentos, misturados com o grau de intensidade que o Xingu tem de vida. E que Belo Monte tem de morte
Anna Maria Andrade

O espectro de Belo Monte acompanhou o inicio da expedição. No primeiro dia de jornada, os canoeiros remaram 44 quilômetros – a perna mais longa da viagem – e cruzaram um dos canteiros de obras da hidrelétrica. Distribuídos em 21 embarcações, os ativistas abriram faixas de protesto diante do canteiro, destacando o lema “Desenvolvimento sim, de qualquer jeito, não”. Um helicóptero da Força Nacional monitorava o andamento da expedição, provavelmente temendo uma hipotética invasão do canteiro de obras. Mas isso não estava nos planos, o recado estava dado.
Na primeira noite de acampamento, ao redor da fogueira, os participantes puderam conversar com Ricardo Baitelo, coordenador da Campanha de Clima e Energia do Greenpeace, sobre as alternativas energéticas disponíveis no mercado – principalmente as novas fontes renováveis, como eólica, solar e biomassa – que fazem de Belo Monte uma obra desnecessária para a ampliação da oferta de energia no Brasil. “Se o setor planejasse e investisse corretamente, além de apostar em medidas concretas de eficiência energética”, afirma Baitelo, “o Brasil não precisaria reprisar a mesma estratégia da ditadura militar: grande hidrelétricas na Amazônia com ainda maiores impactos socioambientais”.

O segundo dia da Bye Bye Xingu foi por meio da Terra Indígena Paquiçamba, do povo Yudjá, ou Juruna. Conheça mais sobre a etnia aqui. Ali, as canoas entraram nos primeiros trechos do Xingu de corredeiras fortes, nas praias com ovos de tracajá – espécie de tartaruga amazônica – e onde o cacique Gilliard Juruna se sente em casa. No acampamento, depois do peixe moqueado, os expedicionários puderam ver e ouvir as danças e músicas do grupo apresentadas por suas crianças. Também puderam conversar com sua principal liderança. Leia aqui o depoimento do cacique Gilliard Juruna:

“O nosso motivo da canoada foi realmente mostrar a realidade pro pessoal de fora, porque o pessoal só lê e assiste a televisão, mas nem tudo que a gente lê e assiste é a verdade. A verdade é aquilo que você mesmo vê de perto. Porque hoje a maioria das coisas que sai sobre Belo Monte é pela Norte Energia, e só falam mil maravilhas . Eles não falam a realidade do povo que está realmente sendo impactado, que nós já estamos sofrendo desde o primeiro dia que eles começaram a andar aqui. Então a canoada foi para o pessoal conhecer a beleza que o Xingu tem, e que vai se perder, e a nossa vida. Também para mostrar aos mais novos como era nossa vida. Sempre fui canoeiro, nosso pessoal só era canoeiro; por isso que somos chamados de dono do rio, porque antigamente quem era conhecido na região só eram nós, os dono do rio. Essa canoada faz agora em três dias o que nossos antepassados faziam ao longo de meses e meses”.

O terceiro e último dia da canoada foi o de atravessar as grandes cachoeiras do Xingu, paredões de água, rocha e areia que, séculos atrás, impediram que as navegações que subiam o rio vindos da foz do Amazonas pudessem acessar a região do Alto Xingu. Essa topografia indomável, assim, permitiu de certa forma que toda a riqueza e diversidade socioambiental daquela região – incluindo aí os povos que hoje habitam o Parque Indígena do Xingu – permanecesse preservada por muitas décadas vindouras. Foi nesse trecho que os canoeiros tiveram que atravessar, por terra, as 21 canoas, em um dos momentos mais emocionantes da viagem, antes de devolvê-las ao rio e seguir descendo ao acampamento final. Tempo da confraternização final entre visitantes e anfitriões, reflexões, agradecimentos e dos últimos mergulhos nas águas frescas e escuras do Xingu.

Assista ao vídeo e veja mais detalhes de como foi a canoada


Palavras sobre a Canoada Bye Bye Xingu por alguns de seus participantes

 

“Cada volta do rio era uma visão de beleza de matas ininterruptas, até que chegamos a uma praia alva onde se podia escutar risos e borboletas amarelas voavam da copa das árvores. Desci da canoa e coloquei meus pés no rio alegre como os índios. Uma velha índia me falou “Quando penso no rio me dói de saudade, eu estou velha, aprendi a contar muitas histórias do rio. Mas quando penso nas crianças que não saberão contar nada do Xingu maravilho…” Então ela começou a chorar e eu chorei junto…”

– Raquel Gepp

“No terceiro dia o Xingu era outro, a cada dia ele nos mostrou suas diversas formas e cores, mostrou que a Volta Grande do Xingu é realmente um trecho muito precioso, com seus moradores que nos receberam com tanto carinho, e que já tem dificuldade em encontrar espécies que antes eram abundantes na sua luta pela sobrevivência.”

– Adriana Mattoso

“Vi uma gente cheia de história e de cultura, que lhes roubaram, e por isso tentam, a duras penas, recuperar. Vi uma gente que vai ver seu meio de vida e de locomoção secar, e mesmo assim não é considerada diretamente afetada por esta mudança. Vi um rio Xingu caudaloso e encachoeirado fazer uma volta grande, exuberante e repleta de vida. Vi praias, cachoeiras, peixes, tracajás, aves… Vi pegadas de bicho que quase preferia não ter visto. Vi de longe castanheiras se imporem sobre a vastidão da floresta e sumaúmas molhando o pé na água. Vi o sol nascer e se pôr como pinturas no céu”.

– Helena Gonçalves

“Nós, urbanos e ruralistas que supostamente sustentam o Brasil, precisamos muito mais dos índios e da mata do que eles precisam de nós. Vivemos na ilusão de que somos os grandes impulsionadores do país, mas a verdade é que, sem a floresta, não há Brasil; não há mundo. Enquanto seguirmos fazendo vista grossa para absurdos como a construção de Belo Monte, só estaremos nos aproximando mais e mais do eminente cataclismo natural e social que nos aguarda num futuro próximo. Outras quarenta hidrelétricas estão previstas para serem construídas na Amazônia. Se isso se concretizar, poderemos dar bye bye a nós mesmos.”

– David Cartum

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