Praticando

O jornalismo resiste


Se as empresas de mídia enfrentam grave crise em seus negócios no mundo, novos modelos de produção independente de reportagens estão conseguindo iluminar os desafios da democracia, do meio ambiente e dos direitos humanos

Reportagem: Maria Carolina Trevisan*
Fotografia: Conta D´Água

A imprensa livre é uma das instituições centrais da democracia. Faz parte de um complexo quebra-cabeça que leva a sociedade a patamares mais consistentes de desenvolvimento social, humano e ambiental. Nessa lógica, exerce papel fundamental na promoção, proteção e garantia de direitos humanos. Quanto mais fortes os veículos de comunicação, maior é o potencial de influenciar o debate público, agendar temas pertinentes à sociedade, acompanhar políticas públicas e fiscalizar o Estado, funções essenciais do jornalismo.

Foto: Mídia Ninja Imagem da margem do Rio Tietê, na altura da cidade de Itu (SP), feita pela rede de cobertura colaborativa Conta D’Água
Imagem da margem do Rio Tietê, na altura da cidade de Itu (SP), feita pela rede de cobertura colaborativa Conta D’Água (Foto: Mídia Ninja)

Os últimos anos se caracterizaram por um crescimento ininterrupto no acesso à informação e tecnologia. Vivemos uma revolução causada pela era digital. O modelo tradicional de produção e disseminação de conteúdo está se adaptando, e é urgente reinventar os meios para informar. De acordo com o último relatório das Nações Unidas “Measuring the Information Society Report 2014”, quase três bilhões de pessoas utilizam a internet, o que corresponde a cerca de 40% da população mundial.

As notícias nunca repercutiram tanto quanto com o vigor das redes sociais, tornando-se ainda mais importantes a precisão jornalística e o trabalho da reportagem: o leitor precisa compreender quais são as fontes confiáveis de notícias dentro de uma disputa de narrativas. É também o tempo do direito à informação e da regulação dos meios, o que dá à comunicação contorno de direito humano em países democráticos.

Ao mesmo tempo, as empresas jornalísticas passam por uma crise mundial, evidenciando que o modelo de negócios tradicional – baseado em anúncios e em circulação – não funciona mais. Um estudo encomendado pelo Instituto Arapyaú, mostra que “a circulação dos jornais também vem caindo há mais de duas décadas. Nos Estados Unidos, sofreu uma queda de 30% de 1990 a 2010 (de 62,3 milhões para 43,4 milhões), no Brasil, a penetração dos jornais diários impressos entre os adultos caiu pela metade, de cerca de 50% em 2000 para 24% em 2013″.

Se por um lado a mídia corporativa está passando por uma reestruturação antes de esvaziar por completo as redações, por outro há um ambiente favorável para novas formas de fazer jornalismo. Muitas vezes, a cobertura feita por jornais locais, on-line e especializados, tem o potencial de tratar de determinados temas com mais qualidade que os veículos de mídia empresarial, mesmo sem grandes financiamentos.

Foto: Mídia Ninja (via Jornalistas Livres) Ato Contra Rede Globo 50 anos em São Paulo, em cobertura do coletivo Jornalistas Livres em 2015
Ato Contra Rede Globo 50 anos em São Paulo, em cobertura do coletivo Jornalistas Livres em 2015 (Foto: Mídia Ninja)

Em 2009, com o apoio de um investidor inicial, Evan Smith e Ross Ramsey, jornalistas americanos experientes, fundaram o The Texas Tribune, em um formato cunhado como “jornalismo sem fins lucrativos”. O periódico é todo digital, está focado na política local e tem um alcance de mais de um milhão de leitores por mês. Entre as estratégias de trabalho, está a parceria com grandes organizações de mídia como o The New York Times e Washington Post. “É preciso trabalhar com todo mundo, incluindo aqueles que você acredita serem seus competidores”, explicou Smith em conferência no 10º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado no início de julho, em São Paulo.

Smith aposta também na transparência, na prestação de contas e em engajar a audiência em debates, por exemplo, sobre o o casamento igualitário ou a importância do voto, como táticas para cativar leitores. Além de reportagens, o Texas Tribune também promove eventos. “O público quer participar”, afirmou o jornalista. Como forma de sustentar o projeto, há assinaturas, contribuições individuais, parcerias editoriais e doações filantrópicas, que são investidas na equipe e na produção de reportagens. Para Smith, sem ter como objetivo principal o lucro, é possível perseguir a imparcialidade esperada dos jornalistas e ajudar a promover mudanças. “Não precisamos fazer dinheiro para ter impacto.”

O surgimento de novas organizações de jornalismo é um fenômeno que atravessa oceanos. O jornal digital El Español é um exemplo de iniciativa bem sucedida com financiamento coletivo. Com poucos meses de vida, arrecadou mais de € 3 milhões com a participação de 5.471 investidores. É um dos três grandes casos de crowdfunding de veículos jornalísticos do mundo. Isso significa que há demanda para essas ideias. O público está sedento por informações bem apuradas, contextualizadas, histórias de pessoas e retratos de situações, transmitidas com clareza e respeito pelos leitores e entrevistados.

Na América Latina, veículos como Sudestada, do Uruguai, Plaza Publica, da Guatemala, La Silla Vacia, da Colômbia e El Faro, de El Salvador, fazem a diferença na cobertura de temas ligados à democracia e aos direitos humanos. Por serem iniciativas de cunho social voltadas para notícias de interesse público, tornam-se relevantes no cenário da produção de reportagens.

Versão brasileira

Foto: Agência Pública Reportagem da Agência Pública sobre o desrespeito à cultura das etnias nas compensações de Belo Monte (Xingu), feita em novembro de 2014
Reportagem da Agência Pública sobre o desrespeito à cultura das etnias nas compensações de Belo Monte (Xingu), feita em novembro de 2014 (Foto: Agência Pública)

O Brasil também é território fértil para as novas mídias jornalísticas. A Agência Pública foi pioneira na empreitada pelo bom jornalismo em paralelo aos veículos tradicionais. Fundada em 2011, a Pública produz reportagens investigativas profundas, oferece bolsas para reportagens e ganhou diversos prêmios pela relevância de seu conteúdo. “Desde o começo, tivemos uma grande preocupação em incentivar o jornalismo independente, acreditando que chegaria essa hora em que os jornalistas entenderiam que cabe a eles melhorar o jornalismo no Brasil”, afirma Natália Viana, uma das diretoras da Pública. “É importante fazer um trabalho profissional, justamente para mostrar à comunidade jornalística que, sim, é possível fazer bom jornalismo e ainda ser feliz.” Entre as muitas reportagens importantes produzidas pela Pública, destacam-se “Na hora de fazer não gritou“, de Andrea Dip, sobre violência obstétrica, e “São Gabriel e seus demônios“, da própria Natália, sobre o município com a maior taxa de suicídios no Brasil, no noroeste amazônico.

Entre os novos veículos de imprensa, há também projetos voltados a uma determinada área de cobertura. Há cerca de um ano, um grupo de jornalistas experientes fundou a Ponte Jornalismo, focada em justiça, segurança pública e direitos humanos. Sua reportagem de estreia retratava a situação do menino José (nome fictício), de 17 anos, que foi confundido por policiais com adolescentes em conflito com a lei. Horas depois da denúncia ter sido publicada, José foi solto. Outro exemplo importante na trajetória da Ponte é a série de reportagens que denunciou a violência sexual na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, produzida pela jornalista Tatiana Merlino. A publicação dos textos motivou investigações na instituição e em outras faculdades.

foto: Foto: Rafael Bonifácio/Ponte Jornalismo Imagem da Ponte Jornalismo em cobertura do velório de pichador cuja família culpa PMs por extermínio
Imagem da Ponte Jornalismo em cobertura do velório de pichador cuja família culpa PMs por extermínio (Foto: Rafael Bonifácio/Ponte Jornalismo)

“O jornalismo não pode morrer. Um de seus papeis mais importantes é o controle dos desvios de poder, de empresas a governos, polícia e justiça. O papel do jornalismo é revelar esses desvios para que os poderes se sintam constrangidos e hajam de forma correta”, explica Bruno Paes Manso, da Ponte. “Crime, justiça e prisões são temas pouco populares para os jornais tradicionais, que estão abrindo mão dessas notícias. Mas, ao mesmo tempo, são fundamentais. Temos o desafio de abordar coisas necessárias à sociedade porém não são populares”, afirma Paes Manso. Para ele, a crise do jornalismo empresarial faz com que esse tipo de abordagem seja ainda mais relevante.

Outra novidade importante é o Brio, que traz textos profundos e reflexivos, como a reportagem sobre a busca pelo torturador da jornalista Miriam Leitão, retratada por seu filho, Matheus Leitão. “É inovadora porque inclui o lado pessoal e, ao mesmo tempo, uma discussão pública que tem tudo a ver com a realidade brasileira”, conta Felipe Seligman, um dos idealizadores do Brio. O texto foi escrito em primeira pessoa e trata de um tema delicado e ainda muito dolorido na sociedade brasileira. Consegue contar a história com tratamento jornalístico, sem se distanciar dos personagens envolvidos, ao contrário: o seu diferencial é justamente incluir a primeira pessoa (o repórter) na notícia. Outra reportagem relevante foi a série de matérias sobre as obras incentivadas com fundos do BNDES, realizada em conjunto por 17 profissionais. “Nessa série pudemos ver o efeito da rede e descobrimos o poder de unir uma reportagem internacional com a visão e o cuidado local”, ressalta Seligman.

O trabalho em rede foi a aposta dos Jornalistas Livres, um conjunto de coletivos, organizações sociais, artistas e jornalistas profissionais que se uniram em rede para cobrir temas ligados à democracia e aos direitos humanos. A rede nasceu da experiência da Conta D’água, que juntou organizações para tratar da atual crise hídrica brasileira de forma imparcial.

Foto: Jardiel Carvalho/RUA Foto Coletivo (Jornalistas Livres) Reportagem dos Jornalistas Livres sobre Semana de Mobilização Nacional Indígena em abril de 2015 em Brasília
Reportagem dos Jornalistas Livres sobre Semana de Mobilização Nacional Indígena em abril de 2015 em Brasília (Jardiel Carvalho/RUA Foto Coletivo)

Os Jornalistas Livres foram a campo pela primeira vez em março, para cobrir as manifestações e construir contra-narrativas para as demandas das ruas, retratadas pela imprensa tradicional do alto de drones, helicópteros e edifícios. “Era preciso mostrar o que se escondia por trás da brilhante fachada cenográfica montada peça Rede Globo, Veja, Folha e outros”, lembra Laura Capriglione, repórter da rede com longa trajetória nos veículos tradicionais. “O que se viu foi feio: torturadores a serviço da Ditadura, como Carlos Alberto Augusto, conhecido nos anos 1970 como ‘Carlinhos Metralha’, sendo homenageados como ‘heróis do povo brasileiro’; carros alegóricos enaltecendo a ‘Intervenção Militar Já!’; mais gritos e xingamentos”, relata.

Dessa cobertura, saíram textos que acabaram por pautar a grande mídia, como Os defensores do impeachment são brancos. “Queremos incluir as vozes, os sotaques, os modos de expressão, as histórias de vida, as alegrias e os lamentos de toda a imensa variedade de formas de vida que se encontram neste país”, explica Laura.

Foto: Alice Vergueiro (Via Jornalistas Livres) Foto do ato de impeachment da presidente Dilma em março de 2015 em São Paulo, feita pelos Jornalistas Livres (https://www.flickr.com/photos/jornalistaslivres/16213654844/in/album-72157651324437236/)
Foto do ato de impeachment da presidente Dilma em março de 2015 em São Paulo, feita pelos Jornalistas Livres (Foto: Alice Vergueiro/Jornalistas Livres)

Sustentabilidade: o grande desafio

Há poucas semanas, a rede Jornalistas Livres bateu o recorde de arrecadação via financiamento coletivo para organizações de jornalismo no Brasil. Alcançou 40% a mais do que era a sua meta na plataforma Catarse e teve o apoio de 1.325 pessoas. O montante não é o suficiente para sustentar a iniciativa, mas é um sinal de que há interesse do público no novo jornalismo. “A crise da grande imprensa, junto com a internet e com o barateamento do custo de produção de informação, levou ao surgimento de várias experiências jornalísticas interessantes ao longo dos anos”, diz Guilherme Canela, assessor de comunicação e informação da UNESCO.

Muitas das novas mídias são financiadas por organizações da cooperação internacional, como fundações e institutos. Acontece que, passado um certo tempo de investimento, a cooperação termina e as organizações precisam sobreviver. A existência de um sistema de mídia independente, livre e plural é relevante para o fortalecimento das democracias e dos direitos humanos. Quando a cooperação internacional deixa de financiar essas organizações, naturalmente, elas passam a disputar o financiamento público.

Foto: Bruno Miranda (via Jornalistas Livres) Ocupação do MTST em Itapecerica da Serra (SP) registrada pelos Jornalistas Livres em 2015 (https://www.flickr.com/photos/jornalistaslivres/17710279746/in/album-72157652915819652/)
Ocupação do MTST em Itapecerica da Serra (SP) registrada pelos Jornalistas Livres em 2015 (Foto: Bruno Miranda/Jornalistas Livres)

Receber dinheiro público é um risco para jornalistas que querem ser imparciais. Mas é uma verba muito importante, acessada pelas grandes empresas e que pode ter independência editorial. Por isso, a regulação dos meios é também importante.

“Se o país tiver uma regulação favorável apenas a oligopólios e monopólios, você continuará tendo uma mídia pouco plural”, alerta Canela.

A imprensa precisa ser livre, observar o interesse público. Mas o jeito de fazer jornalismo está mudando. Como disse Smith, do The Texas Tribune, “esse tipo de jornalismo requer compromisso. Não é uma carreira ou um emprego. É um modo de vida.”


*Maria Carolina Trevisan é jornalista, repórter da rede Jornalistas Livres, fundadora da Ponte Jornalismo e Jornalista Amiga da Criança

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