Reportagem

Antes da tempestade


Povo Munduruku se reúne para salvar seu território, às margens do Tapajós, da decadência socioambiental que se instalou no Xingu após a chegada da hidrelétrica de Belo Monte

Reportagem: Luana Lila
Fotografia: Fábio Nascimento

A voadeira segue veloz pelo rio Cururu. De quando em quando faz um desvio para pegar um atalho por dentro da floresta alagada, onde as árvores formam uma abóbada que emoldura o céu e se reflete na água. Equilibrando-se para desviar de galhos e troncos, a pequena embarcação segue até alcançar novamente o rio com as margens distantes.

Aldeia Waro Apompu, na Terra Indígena Mundurucu, onde foi realizada a assembleia geral desse povo, entre março e abril de 2015, com a participação de mais de 700 pessoas de 102 aldeias

Esse jogo de oposição entre o rio espaçoso e a mata fechada, o sol e a sombra, o barulho e o silêncio se repetirá muitas vezes até chegarmos ao destino final: a aldeia Waro Apompu, no Pará, do povo Munduruku. A teia de “estradas” que percorremos é tão difícil de decifrar quanto as ruas de uma cidade grande que cresceu desordenada. Um desconhecido não acertaria a rota nem utilizando um aplicativo de GPS, mas, para os índios, acostumados a navegar por essas veredas, o mapa dos caminhos da floresta está na palma da mão. O Cururu é um afluente do rio Tapajós, cujas margens são ocupadas há séculos pelos Munduruku, hoje mais de 12 mil pessoas.

A aldeia Waro Apompu, na TI Mundurucu, foi escolhida para a realização da Assembleia Geral desse povo, entre o final de março e o começo de abril deste ano, atraindo cerca de 700 índios de 102 aldeias, entre eles 90 caciques. O objetivo dessas reuniões normalmente é discutir aspectos caros aos povos indígenas, como saúde e educação, além da resistência da cultura. Neste ano, entretanto, há um assunto ainda mais premente na pauta: a construção de uma série de hidrelétricas no rio Tapajós.

Conhecido como Complexo do Tapajós, esse projeto tem cinco usinas hidrelétricas planejadas na bacia desse rio, sendo a maior delas a de São Luiz do Tapajós, que, se construída, poderá alagar a Terra Indígena Sawré Muybu, onde os Munduruku estão realizando uma autodemarcação iniciada depois que o processo oficial foi paralisado pelo governo em 2013.

Jovens se divertem as margens do rio Cururu, afluente do Tapajós, onde há planos para a construção de hidrelétricas

Na aldeia, o dia começa cedo. Antes mesmo de amanhecer é possível ouvir as conversas das primeiras famílias que vão se banhar no rio. Nas margens, mulheres lavam roupas enquanto banham os filhos menores. Os mais crescidos se divertem em um espetáculo de piruetas e mergulhos. A intimidade com o rio é total. É nele também que as mulheres vão mais tarde tratar o peixe trazido pelos maridos. Depois, é novamente ali que vão lavar as panelas, usando a areia como “Bombril”, só que ainda mais eficaz, para deixá-las brilhando como novas. Ao contrário das grandes cidades, ali as águas ainda são limpas e cristalinas, livres da poluição.

É pelo rio também que os moradores de outras aldeias chegam para o evento. Ao longo do dia, as voadeiras (como são chamados os barcos com cascos longos e motor de popa) não param. Antes mesmo de apontar na curva, o barulho já denuncia a chegada das embarcações, e os homens trajados como guerreiros, com arco e flechas nas mãos, aguardam nas margens para recepcionar os parentes. O clima festivo domina todo o encontro. As mulheres se encarregam da comida – carne de caça ou peixe acompanhado de farinha – enquanto uma fila bem organizada se forma para aguardar pela distribuição da refeição. Até que começa a primeira reunião.

“Estou feliz de ter muita gente aqui hoje. Quero ser aconselhado pelo povo, como na escola. Meu conselho a vocês é que vocês aconselhem a mim”, diz o cacique-geral Arnaldo Kabá, dando as boas-vindas. Ele pede também para os que ainda não se pintaram o façam como uma forma de fortalecimento e união do grupo. Os desenhos, feitos ao longo do corpo com tinta de genipapo, representam aspectos presentes na cosmologia Munduruku, como o jabuti, os peixes e a palmeira chamada de buriti.

Guerreiros Munduruku se preparam para receber parentes que chegam para participar da assembleia geral do povo, entre março e abril de 2015, com a participação de mais de 700 pessoas de 102 aldeias

Apesar de contatados pelos portugueses desde o século XVIII, os Munduruku conseguiram resistir e hoje vivem um processo forte de resgate da cultura, com a língua nativa desempenhando um papel essencial – toda a reunião é realizada em Munduruku (e traduzida para os não-índios presentes por alguns representantes), e as crianças preferem esta ao português na hora de se comunicar.

À noite, a aldeia se reúne para uma apresentação de fotos realizadas durante um sobrevoo promovido pelo Greenpeace com o cacique-geral e o cacique da aldeia Sawré Muybu (que corre o risco de ser alagada pelo empreendimento), para ver de cima a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu. Após a experiência, o cacique-geral diz à equipe do Greenpeace que os Munduruku não querem a barragem: “Meu finado pai dizia: ‘um dia vocês vão ver as coisas feias, não vão poder dormir direito, comer direito’. Isso aqui já é uma amostra, imagina no nosso Tapajós”, comentou.

Cacique-geral do povo Munduruku, Arnaldo Kabá, observa a construção da hidrelétrica de Belo Monte em sobroveoo realizado pelo Greenpeace no final de março de 2015

Agora, Arnaldo Kaba tem a oportunidade de mostrar ao seu povo o que pode acontecer no rio do qual eles dependem para sobreviver física e culturalmente. Enquanto as fotos são projetadas na parede do posto de saúde, ele discursa:

“Começou a nossa luta como resistência do que não queremos. Prestem atenção para vocês verem que isso é verdade: Belo Monte é uma destruição tamanha. Mesmo sendo longe é o exemplo. Fui fazer esse sobrevoo para trazer essa mensagem a vocês. Eles [os índios do Xingu] foram enganados com pequenas coisas que o governo ofereceu em troca da destruição e agora estão querendo fazer com a gente o mesmo que lá. Nessa assembleia, as pessoas devem se unir para se fortalecer, não quero ver a fraqueza do povo. Se fraquejarmos vamos perder a luta”.

Homens, mulheres e crianças ouvem com atenção a fala de sua liderança cientes da importância de suas palavras e se preparando para enfrentar essa ameaça que paira sobre suas cabeças podendo comprometer para sempre o seu modo de vida. Além de fonte de alimentação e meio de transporte, o rio Tapajós tem um papel importante na cultura Munduruku. Segundo sua cosmologia, ele foi criado por Karosakaybu (uma Deus com características humanas) a partir da água do tucumã e guarda diversos lugares sagrados, como as corredeiras onde a maior das cinco hidrelétricas previstas seria construída.

“É como se quisessem fazer uma hidrelétrica no vale do rio Jordão, tão sagrado para os cristãos quanto o Tapajós para os Mundurukus. O fato é que setores econômicos interessados nas terras e nos recursos naturais dos territórios indígenas fazem valer a máxima de que a manutenção da cultura indígena e a conservação dos seus territórios são um empecilho ao desenvolvimento do país” explica Danicley de Aguiar, da Campanha da Amazônia do Greenpeace.
Entre diversos impactos, o empreendimento, que ficaria em uma das áreas mais ricas em biodiversidade da Amazônia, pode alterar o curso do rio, afetar a população de peixes e causar a extinção de diversas espécies que já vivem ameaçadas na região.

 

Aldeia Sawré Muybu vista de cima. O local, que fica às margens do rio Tapajós, pode ser alagado pela construção da hidrelétrica de são Luiz do Tapajós, a maior de um complexo de cinco hidrelétricas que podem ser construídas na bacia deste rio

Informação e direitos

O professor Edvaldo Poxo Munduruku guarda em casa uma cartilha sobre o mecanismo chamado de Consulta Prévia, Livre e Informada, previsto na Convenção 169 da OIT (Organização Mundial do Trabalho), da qual o Brasil é signatário. Folheando-a, ele conta temer que, junto com a obra, surjam problemas como a prostituição, o trabalho escravo, o alcoolismo e as drogas.

No final de 2014, foi realizada uma série de oficinas sob coordenação do Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA) e em parceria com diversas organizações, entre elas, o Greenpeace, para explicar ao povo sobre seu direito à consulta prévia. O objetivo era que, cientes de seus direitos, eles pudessem obter as ferramentas necessárias para saber como reivindicá-los.

Edvaldo Poxo Munduruku, professor da escola de Waro Apompu, mostra cartilha sobre a Convenção 169, que define o direito à consulta prévia, livre e informada

Como resultado, em 2014, os Munduruku elaboraram um protocolo determinando como querem ser consultados. O modo de organização política dos Munduruku pressupõe a tomada de decisão por consenso. Para eles, homens, mulheres e crianças devem ser ouvidos quanto aos aspectos que podem afetar a vida do povo. Foi isso que o protocolo definiu, entre outras diretrizes, como a que afirma que a consulta deva ocorrer em todas as aldeias, diferentemente do modelo atual utilizado pelo governo ao fazer reuniões apenas nas cidades mais próximas e com pouco espaço para o diálogo.

Como que para se prevenir desse formato, em fevereiro deste ano, uma delegação Munduruku esteve em Brasília para entregar o Protocolo nas mãos do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, que se comprometeu a analisá-lo. Até hoje, no entanto, sequer houve resposta. “Os caciques que lutaram pela demarcação [das terras indígenas já homologadas] deixaram uma herança para nós, e não é em dinheiro, é em riqueza natural. Eles lutaram para não mexer na floresta. Não queremos estrada, desmatamento, poluição, barragem. O que ganhamos com isso? Nada.”, diz Edvaldo.

Em junho, uma sentença da Justiça Federal de Itaituba determinou a realização da consulta  – não só com indígenas, mas também com ribeirinhos – antes da emissão de qualquer licença para o empreendimento.

Como explica o procurador da República do Ministério Público Federal do Pará Camões Boaventura, o objetivo da consulta é obter o consentimento real informado e livre de um povo que será impactado. O problema, segundo ele, é que “o governo parte do pressuposto de que tomou a decisão e vai ouvir os índios para cumprir tabela – se eles disserem sim ou não, pouco importa”.

Como exemplo, Camões cita Belo Monte, onde diz que não houve “nem consulta, quanto mais prévia”, explicando que direitos básicos, como saúde, educação e saneamento, foram oferecidos como se fossem favores concedidos em troca da usina. “A nossa maior missão em relação aos impactados é que eles saibam que não precisam pedir a construção de um posto de saúde como um favor, e sim que eles têm esse direito, independentemente de haver a barragem ou não”, afirma ele, que participou das oficinas realizadas em 2014 e agora esteve novamente em terras Munduruku para falar na assembleia geral.

No encontro, o procurador leu os 14 impactos que podem ser provocados pelas hidrelétricas, segundo parecer da Funai. Ao final da reunião, os Munduruku perguntaram a Camões por que, em Belo Monte, mesmo com tanta resistência por parte da população local, a obra foi construída. Ele respondeu que, em uma luta, há duas oportunidades: vencer ou perder. Mas, quando se opta por não entrar na luta, resta apenas uma possibilidade: a de perder. “Então perguntei: qual é a situação em que os Munduruku gostariam de estar, com duas chances ou com uma chance? Todos responderam que era com as duas chances e emendaram o Sawé [grito de saudação Munduruku]”, conta Boaventura.

Crianças Munduruku em árvore em frente ao rio observam a chegada dos participantes da assembleia geral desse povo, entre março e abril de 2015, com a participação de mais de 700 pessoas de 102 aldeias

Confira a galeria de fotos

André Villas-Bôas: “Belo Monte é uma tragédia anunciada”

por Alan Azevedo

Com a publicação do “Dossiê Belo Monte – Não há condições para a Licença de Operação” pelo Instituto Socioambiental (ISA), é possível confirmar o desastre que vem se acumulando no Rio Xingu e na cidade de Altamira, no Pará, desde os primeiros passos da construção da terceira maior usina hidrelétrica do mundo em potência instalada, estimada em R$ 30 bilhões. Ao desrespeitar grande parte das condicionantes para a construção do mega empreendimento, a Norte Energia, empresa responsável pela obra, permitiu, ao lado do poder público, que a cidade de Altamira e região se tornassem um triste cenário de abandono e caos: 0% de esgoto tratado, aumento de 73% na taxa de reprovação do ensino médio e 80% no número de assassinatos. Fora da cidade, territórios indígenas e Unidades de Conservação (UCs) apresentam índices crescentes de desmatamento, invasão e violência. E a cereja do bolo: remoções forçadas e realocação da população local em áreas que inviabilizam seus modos de vida.

Assista ao vídeo e saiba como ficou a vida dos ribeirinhos do Rio Xingu após Belo Monte

Testemunha há quase 40 anos do desrespeito à população amazônica, André Villas-Bôas, um dos coordenadores do dossiê Belo Monte e do Programa Xingu do ISA, aprofunda a questão e alerta que o Brasil segue reproduzindo na Amazônia o modelo predatório implementado há mais de 50 anos. Ex-coordenador de Assuntos Indígenas do antigo Ministério da Reforma Agrária e com passagem pela Fundação Nacional do Índio (Funai), Villas-Bôas morou com diferentes etnias do Mato Grosso e do Amazonas durante anos e conhece de perto a realidade das populações que dependem do Rio Xingu para sobreviver.

“Belo Monte é uma tragédia anunciada”, dispara ele. Leia os melhores momentos da entrevista:

Segundo o dossiê, desde o início do processo de licenciamento de Belo Monte, sérios problemas foram detectados. E agora o estudo comprova os atrasos na infraestrutura de saúde, educação e saneamento básico, entre outros serviços prometidos pela Norte Energia. Como você explica tamanha passividade do poder público frente esse desastre anunciado? Como a situação se arrastou a esse ponto crítico?

Acho que são dois aspectos. A decisão política de fazer Belo Monte e o tempo definido para a obra começar. Houve um equívoco nas condições de preparo da região – um problema do governo e do processo técnico de licenciamento. No licenciamento, são previstas medidas antecipatórias, que preparam a região para receber o empreendimento e devem ser cumpridas antes da licença de instalação. No entanto, os bancos não emprestam dinheiro ao empreendedor antes de ter a licença de instalação. Portanto, os investimentos antecipatórios só são implementados após a licença de instalação sair, junto com a obra, gerando um descompasso, como a sobrecarga dos serviços, por exemplo. Quando a obra começa, inicia-se o período migratório de funcionários e famílias, e os serviços começam a entrar em colapso: educação, segurança, trânsito, fiscalização. Belo Monte uma tragédia anunciada.

O dossiê aponta diversos investimentos realizados pela Norte Energia na cidade de Altamira, como a construção de 30 unidades básicas de saúde, R$ 485 milhões destinados para o saneamento básico e R$ 115 milhões para segurança pública. Mas a cidade se encontra em situação de calamidade e desordem. Por que existe esse abismo entre os investimentos (na ordem de centenas de milhões de reais) e a garantia dos serviços básicos?

Em parte, porque a forma de implementar esses serviços não foi dimensionada de maneira correta. Por exemplo, o saneamento básico: a obrigação da empresa era a de construir um sistema de tratamento de esgoto e distribuição de água potável, além de fazer as ligações nas ruas para que o serviço chegasse às casas. Porém as ligações com as casas não foram previstas no contrato, e a empresa alegou que não cabia a ela. Mas como uma empresa cria um sistema que deve funcionar e não prevê a ligação das casas? Aí você vê a fragilidade: como o empreendedor, o licenciador e a prefeitura – que zela pelo interesse das pessoas do município e tem responsabilidade no assunto – podem deixar um ponto tão importante em aberto durante o processo de licenciamento? Só no final, a 60 dias da última licença ambiental, o problema eclode, como se tivesse caído do céu.

O reassentamento da população, que envolve quase 27 mil pessoas, também é uma questão delicada. A empresa anunciou ter fechado seu plano de Realocação Urbana e Rural, excluindo parte da população. Mesmo quem tem direito a uma nova casa deve aceitar um terreno longe da cidade e do Rio Xingu, para enfrentar condições de vida totalmente diferentes da anterior. Qual o impacto dessa conversão de populações na vida dessas pessoas e na cidade?

O impacto social de excluir ou inviabilizar as atividades das pessoas – muitas das quais já têm idade e não tiveram acesso à educação – é um trauma que vai repercutir durante anos na região. Quais serão as alternativas para elas se reinserirem em um mundo técnico e setorizado? Belo Monte é uma usina feita na Amazônia com garantias formais de condicionantes de mitigação de impacto. Mas, ao final do processo, as populações amazônicas foram as mais afetadas, pois o projeto não dialoga com suas particularidades.  A população de ribeirinhos e pescadores tem uma sazonalidade com a cidade: eles vão para ilhas no Xingu, fazem suas roças, pescam e voltam para a cidade para comercializar. Esse é o sistema amazônico. Mas a empresa diz que só pode resolver o problema de uma das residências dele. O que essa pessoa vai fazer? É uma insensibilidade desse processo ao lidar com minorias vulneráveis. Parte dessa população deveria ser assentada na beira do rio próximo à cidade. Porém, muitos são realocados para quilômetros de distância, o que inviabiliza seu trabalho. E os órgãos responsáveis por tutelar o direito dessas populações foram enfraquecidos. É o caso do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), da Funai (Fundação Nacional do Índio) e da DPU (Defensoria Pública da União).


O pescador Raimundo Campos da Silva conta como ficou sua vida após a chegada da usina hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu

Por falar na Defensoria Pública da União, que chegou apenas esse ano em Altamira, o órgão recebeu os processos de duas mil famílias que se sentem injustiçadas com essa realocação.

Essa população não tem recursos para lidar com uma negociação injusta. Então, como enfrentar os advogados da empresa no processo de negociação se receber um valor de indenização injusto? Por isso que existe a Defensoria Pública. As empresas terceirizam o processo de negociação com as populações, contratam advogados que só precisam mostrar indicadores positivos e não estão preocupados com soluçãos adequadas às populações. Isso mostra a gravidade da ausência da DPU, que demorou para chegar e chegou de forma muito aquém da necessária.

Sobre a desestruturação das aldeias: a Norte Energia entregou dois milhões de litros de combustível e lubrificante, veículos, geradores e itens como TV’s e refrigerantes às aldeias impactadas. Era disso que esses povos precisavam? Quais os impactos do acordo para as comunidades? Como foi a negociação?

Houve um processo de cooptação dos indígenas antes do leilão, pela Eletronorte e as empresas construtoras, para que os povos da região afetada pela usina vissem o empreendimento como positivo. Isso gerou um conflito entre os grupos do Xingu, já que muitos eram contrários às obras. Como eram povos razoavelmente isolados, abandonados pelo Estado e carentes de assistência, a cooptação foi relativamente fácil: a empresa viabilizou o acesso a benefícios de consumo antes das obras começarem. Esses recursos receberam o nome de Projetos Emergenciais e foram estabelecidos com recursos das condicionantes, mesmo sendo verbas diferentes. As comunidades tinham 30 mil reis por mês para comprar o que quisessem. Foi uma festa do consumo: centenas de motores, televisões de plasma, aparelhos de DVD, barcos. O impacto foi imenso, por exemplo, na nutrição. Grupos que possuíam a subsistência estruturada tiveram sua alimentação abalada. As roças pararam de ser produzidas ou diminuíram muito, e a dependência deles aumentou. Como se não bastasse, criou-se um modelo de relacionamento complexo, porque além dos povos não falarem nossa língua e não dominarem nossos códigos, eles passaram a achar que essa é a abordagem normal. Então, quando houve o leilão e a Norte Energia assumiu, os índios esperavam continuar ganhando os recursos. Existe a responsabilidade de estabelecer um relacionamento saudável e que proteja esses grupos.


O professor Fabiano Oliveiro Vitoriano fala sobre as mudanças em Altamira por conta da chegada da usina de Belo Monte

Quer dizer, é uma questão de falta de consulta apropriada, o que vem se repetindo, mesmo posteriormente aos erros de Belo Monte, como é o caso da Usina de Tapajós, no qual a participação do povo Munduruku foi totalmente ignorada.

O problema é que o resultado da consulta não é vinculante, ou seja, se os índios todos da região, após serem devidamente informados por tradutores, na língua deles – de maneira que não só as lideranças possam entender mas as mulheres, todos os homens e os idosos também –, se eles tomassem uma decisão contrária à obra, esse posicionamento não obrigaria o governo a embargar o empreendimento. Isso está lá na 169 [Convenção sobre Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes da Organização Internacional do Trabalho]. A decisão da comunidade não é vinculante à decisão do empreendimento. No entanto, abre-se um processo de negociação que pode refinar a política de mitigação no diálogo com cada povo, em cima das preocupações reais que eles estão manifestando. Mesmo não sendo vinculante, você pode eliminar os programa feitos sem diálogo, de cima para baixo, e evitar os planos emergenciais.

Nas Terras Indígenas (TIs) e Unidades de Conservação (UCs) aumentou a invasão de madeireiros, caçadores, pescadores comerciais e garimpeiros, o que coloca em risco a vida dos povos da região. Por que algumas dessas áreas não foram consideradas afetadas pelas obras? Isso quer dizer que o impacto do empreendimento foi subdimensionado pelo EIA-RIMA?

De um lado você tem as UCs, nas quais existem comunidades tradicionais e pessoas vivendo, como extrativistas e ribeirinhos. No EIA-RIMA, considerou-se que a usina não impactaria as UCs, uma clara tentativa de facilitar o processo de licenciamento. Mas essas UCs estão ao lado das TIs, sendo que todas essas áreas indígenas foram consideradas impactadas no licenciamento ambiental. Como uma TI, de um lado do rio, é considerada impactada e uma UC, do outro lado do rio, é considerada não impactada? Foi uma jogada do governo para facilitar o processo, porque, se incluísse as UCs, geraria novas exigências para mitigar essas unidades, o que alongaria e encareceria a licitação. Então, as UCs não tiveram condicionantes e receberiam compensação ambiental. A obra de Belo Monte gerou uma compensação de 120 milhões de reais. Mas o Ibama destinou 90% desse recurso para outras regiões. Com as TIs, o problema é outro: os programas de fiscalização previstos nas condicionantes não começaram a tempo, deixando as áreas vulneráveis à exploração de madeira e a entrada de colonos. Houve um caso grave: o Ibama estipulou que a empresa responsável pela construção das casas no reassentamento deveria utilizar madeira da área a ser alagada. Mas a empresa resolveu comprar a madeira, estimulando a exploração ilegal – boa parte dela em TIs.

Recentemente a mídia veiculou denúncias de esquema de corrupção nas maiores empreiteiras do País. Até que ponto essas obras gigantescas são necessárias e até que ponto cumprem o objetivo dos governantes de atender os interesses das empreiteiras que financiam suas campanhas?

As empreiteiras no Brasil têm um poder econômico extremamente forte. Várias das envolvidas em escândalos nasceram com a construção de Brasília. O vínculo do governo com elas sempre foi grande. A construção da rodovia Cuiabá-Santarém, da Transamazônica, da BR-163 e todas as grandes obras fizeram com que essas empresas estivessem muito ligadas aos órgãos do governo e a um sistema de financiamento de campanhas e facilitações. O país foi enriquecendo, fazendo mais obras de infraestrutura, e esse sistema foi crescendo. O governo tem construções por todos os lados, Belo Monte, Tapajós, transposição do Rio São Francisco. Esses grandes empreendimentos têm um tipo de relação com pouca transparência. É algo que vem de longa data. No entanto, chegou a um ponto absurdo, que vemos na Operação Lava-Jato, no patamar de bilhões de reais. Essa é a lógica que foi estabelecida no país e transpassou todos os partidos políticos.

Segundo o dossiê, nesta última parte do licenciamento, não será possível transferir as obrigações descumpridas para a licença ambiental seguinte. Mesmo assim, tudo indica que a licença vai seguir o mesmo exemplo das anteriores. Na sua opinião, por que isso acontece? Após esse aval dos órgãos ambientais, como fica a situação e quais as perspectivas?

Do ponto de vista da construção, a obra de fechamento final do Rio Xingu deve ser feita no período da seca, a partir de agosto. Então, a expectativa da empresa é de ter o licenciamento em setembro. Se ela perder essa janela, perde um ano. Isso é um fator de inviabilidade do empreendimento, porque seria preciso manter toda a estrutura por um ano, até a próxima seca. Essa questão torna imensa a pressão para que o licenciamento seja dado de qualquer maneira. Será que o governo vai ratificar o compromisso de dialogar com cada seguimento que tem pendência? Ele precisa ser claro ao validar o que não foi feito nos últimos quatro anos e nem será feito até setembro. Mas tendo prevaricado em diversos aspectos ao longo da obra, quem garante que, mesmo no roupante de ser correto e assumir um compromisso público, o governo vai cumprir suas palavras? Pelas circunstâncias que citei, acredito que vai simplesmente conceder a licença ambiental.


O ex-usuário Leandro Marcos Machado fala sobre a violência decorrente da chegada de Belo Monte no Xingu

Tem alguma consideração final que o senhor queira fazer?

Não sabemos fazer empreendimentos na Amazônia de maneira a respeitar e resguardar as populações locais. Não aprendemos, não fizemos isso, apesar de tudo que ocorreu ao longo dessas obras nos últimos 50 anos, apesar de termos dado R$ 3.2 bilhões para condicionantes socioambientais em Belo Monte. Apesar disso tudo, ainda ficou uma lacuna inexplicável do por quê essas populações ficaram tão vulneráveis e foram tão maltratadas no processo de construção dessa usina.

Compartilhe esta matéria


Quer ajudar a preservar as florestas?

Juntos podemos levar para o Congresso uma lei popular pelo fim da destruição das florestas.

Assine pelo Desmatamento Zero

Compartilhe a edição #2 da Revista Greenpeace